SpheraBook #35 – Contos: Bang! Bang! – Tiros! e Um Menino…

BANGBANG

Por José Eduardo Bertoncello.

 

Bang! Bang! – Tiros!

Ele acordou num sobressalto da cama da prostituta, uma de suas empregadas. A garrafa vazia que dormiu com os dois, como uma boneca de criança, caiu e quebrou. A luz era pouca – era luz de começo de manhã.

Não foram no quarto. Foi até a porta, cambaleando. Fez uma bagunça, tropeçou, derrubou coisas – ainda estava bêbado. Ouviu, procurou ouvir: nada. Nem no seu Saloon, lá embaixo. Então, até a janela, na ponta dos pés. Olhou sorrateiramente pela fenda, com medo de mexer na cortina, escondendo-se. Lá estavam, lá fora. Vindo pela rua. Muitos, talvez todos eles. A cidade inteira?

– Estrume!!! – praguejou. – Estrume!!! Estrume!!! Estrume!!!

Pegou só o cinto com as armas e as balas. Abandonou o quarto, sua funcionária dorminhoca e suas roupas. Desceu, saiu por uma janela, fugiu para os fundos.

Muitos sofriam e muitos morreram. Por causa dele. Não devia ter comprado whisky daquele traficante, não dele. E não devia tê-lo batizado. Não com pólvora, nem com alcatrão, nem com…

Os gritos chegavam de longe, junto com tiros para o alto. Estavam cheios de palavrões e maldições. No meio destes, algumas promessas:

– Nós vamos te dar pros peles-vermelhas!!! Eles também estão doentes!!! Vão usar seu couro safado para fazer tambores!!!

– Não!!! – E pôs a mão em seu escalpo, ainda no lugar.

Pegou o cavalo de outro, que não queria ser pego. Ele resistiu – não era o seu dono. No desespero, o fugitivo seminu sacou e encostou uma arma na cabeça do animal, e o ameaçou, cuspindo em sua cara. Situação ridícula, mas o cavalo pareceu entender e aquietou-se. Montou. A cela, sentida nua e crua, incomodava sua pele.

Para onde?

Olhou para o deserto. Aquele abismo encarou-o de volta. Era sua única saída. Ninguém pensaria que fugiu por ali… Que seria tolo ou louco o suficiente. Entrar no deserto sem água, sem comida… Sem roupas e sem chapéu também. Sem esperança. Nenhuma.

Foi.

Olhou várias vezes para trás. Procurava-os lá no horizonte distante sem querer encontrá-los.

Ninguém.

Era culpado e todos o odiavam, até a natureza. O sol chicoteou sua pele durante horas. O vento resolvera cuspir areia em seus olhos, pequenos punhais. E investiu contra ele, como que querendo segurá-lo, impedi-lo de continuar, queria que fosse pego. E o animal parecia sacolejar mais do que deveria, só para torturar suas nádegas. Maldito!

O Sol passeou lentamente por sobre ele. Quando estava indo embora, a meio caminho do chão, suas forças se foram de uma vez. Escorreram com o suor. Não tinha nem o suficiente para ficar ereto na sela. Despencou sobre o animal, que finalmente pode diminuir o ritmo da fuga para o de um cortejo fúnebre. Pensara, antes do desmaio, na sorte dele: sua suadeira o banhava e refrescava. Maldito!

De repente… Trovões! Rugidos! Tiros! Eles!

Acordou. Gritou e virou sobre a cela, num movimento brusco. Caiu do cavalo. Este se ergueu e relinchou, quase sádico e provocante, e o abandonou em disparada. Adeus…

– Não, desgraçado!!! Volte aqui!!! Volte aqui!!!

Atirou no traidor para segurá-lo. As duas armas, várias balas. Conseguiu – matou-o.

Mais tiros vindo caçá-lo lá de trás, um enxame de disparos. Correu. Saltou para trás de uma pequena duna.

Estava…

– Nãããooo!!!

Sim. Estava cercado.

– Aaaaahhhhh!!!

Vomitou todo o seu desespero nesse brado. Não tinha balas ou sorte para lidar com todos. Tinha o ódio de muitos.

O que lhe restava?

Colocou os canos sob o queixo. Sentiu-os por um momento. Fechou os olhos, tremeu, chorou, quase rezou.

Bang! – dois sons, ouvidos como um só. Duas mortes, para garantir sua fuga. Sua vida espirrou para cima e choveu sobre as areias como um pequeno chafariz. Seu cadáver ajoelhou e caiu para frente, prestando reverência à morte, que ele invocara.

Pouco depois, o vento começou a intensificar-se e a assobiar, como que pedindo silêncio. A areia foi revolvida; O sangue foi misturado ao solo; Os rastros sumiram. Mas nenhuma pegada nem marca de bala, além das do fugitivo, foram apagadas. Ninguém mais ouviu o seu grito ou o disparo final. Foi assombrado por fantasmas… delírios e miragens. Bebida, Sol e desespero – eis tudo.

Ao ser encontrado, seu esqueleto falaria aos vivos de uma história só testemunhada pelos carniceiros. Um conto dos abutres.

 

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Escrito por Agnes Carvalho, (blog Rascunho e Borrões)

 

Isac era um menino muito levado, aos seis anos de idade. Travesso, não parava quieto, em casa ou na rua. Até o dia em que descobriu as palavras e se apaixonou por elas. Começou a passar a maior parte do tempo na biblioteca de sua mãe, encarando páginas completamente preenchidas por símbolos que ainda não conseguia decifrar por completo.

Intrigada, sua mãe tentava compreender aquela súbita mudança no comportamento do filho. Dias antes, ele inventava qualquer desculpa para passar a tarde no parque com os amigos, e ignorava os esforços dela, que insistia em lhe ensinar as primeiras letras.

Quando ela comentou com o esposo sobre a inesperada nova rotina do menino, ele tentou tranquilizá-la: era só uma fase; devia ser a filosofia da escola finalmente fazendo efeito; e, afinal, porque ela estava reclamando? Não era aquele o seu sonho? Oras!

“Mãe, qual a diferença entre hora com H e ora sem H?”

Era a primeira vez que ele lhe perguntava algo espontaneamente, e ela resolveu por fim acreditar na teoria do esposo. Finalmente, seu filho mostrava-se interessado pelas palavras, embora ela não soubesse o que despertou nele tamanha ânsia.

“Mãe, o que significa ansiedade?”

Assim, as tardes de jogos de rua deram lugar às incontáveis perguntas e questionamentos, conduzidos pela curiosidade daquele garoto. Isac aprendeu a ler e a escrever rapidamente, e só encontrava os amiguinhos pela manhã, na escola.

“Reunião escolar, dia 18, às 08:00 horas”, Isac leu para a mãe o bilhete que recebera da professora. Amanhã. Antes de subir para o quarto e trocar de roupa, fez mais duas perguntas à mãe.

“Mãe, o que é suspensão? E cárie?!”

“Seu filho”, disse a professora na manhã seguinte, “está vendendo palavras.”

Ao perceber no confuso semblante da mãe que ela não havia entendido nada do que acabara de dizer, a professora continuou. “Descobrimos que ele se gaba com os coleguinhas de ter a mãe mais inteligente do mundo. E cobra delas uma bala por cada pergunta respondida. Por sua mãe. O que a senhora tem a dizer sobre isto?”

 

SpheraTeam

Escritor: Douglas (Blog dos Contos)

Revisora: Anninha (Poltrona de Cinema)

Editor: Thiago Simão (SpheraGeek Supremo)