[SE] Festival Internacional de BD de Angoulême – Minhas Impressões por Denis Mello

Minhas impressões sobre o evento que movimentou a cidade de Angoulême, na França,  entre 26 e 29 de Janeiro

por Denis Mello

Sempre ouvi falar, no Brasil, sobre o Festival Internacional de BD de Angoulême, considerado o maior evento de história em quadrinhos da Europa e onde são anunciados os vencedores da maior premiação da área. Mas muito pouco sabia além disso… Até estar presente na última edição, a 44º do evento. Aos desavisados: BD ou bande desinée, que numa tradução literal seria “banda desenhada” é como eles chamam as histórias em quadrinhos por aqui.

Infelizmente perdi o primeiro dia do evento principal pois, para o meu azar, fui agendado para resolver questões de imigração em outra cidade justamente nesse dia e cheguei tarde demais, mas já pude sentir o clima incrível que toma conta de toda a cidade no período de realização da convenção! Angoulême é uma cidade pequena de arquitetura medieval, com cerca de 44.000 habitantes. Já estou aqui a quase dois meses, e posso afirmar que é bem monótona no restante do ano. Linda, porém sem muito pra se fazer. Claro, se você é um fã de quadrinhos, a cidade tem atrativos como o Museu da Banda Desenhada, a estátua de Corto Maltese, personagem que estampa diversos bares  e ônibus por aqui, diversas outras homenagens a autores ou personagens de BD, grafites enormes e lindos em algumas laterais de prédios, mas se você é um turista, em 1 dia você consegue ver tudo o que tem pra ser ver. Entretanto, o Festival mobiliza toda a cidade, desde os comércios até a vida da população em geral. Nesse sentido, o único lugar em que vi algo parecido foi na FLIP em Paraty!

Um detalhe muito importante é que o Festival é focado APENAS em histórias em quadrinhos! Ele acontece em diversos pavilhões espalhados pela cidade. São eles:

-Le Monde des Bulles (esse é dividido em dois): É basicamente aonde estão as grandes editoras, vendendo seus livros e fazendo as seções de autógrafos de seus autores.

-Espace Para BD: Um pavilhão com stands que vendem materiais relacionados a HQ, como quadros, prints, camisetas, estatuetas, canecas entre outros, além de stands de sebos e livrarias menores, onde é possível encontrar materiais publicados a mais tempo e que estão fora do catálogo das editoras atualmente.

-Marché de Droits et Licenses: Basicamente um galpão para tratar sobre direitos de publicação e licenciamento, onde várias editoras e outras empresas fazem contatos e avaliações, mas era um pavilhão de acesso reservado apenas para quem tinha a credencial de profissional, falarei sobre isso adiante.

-Espace BD Alternative / Le Nouveau Monde: O maior pavilhão do evento, que na verdade é a junção de dois. Nele encontramos stands de editoras menores, coletivos, artistas independente e de estrangeiros.

O evento é fantástico, mas vou começar falando sobre o que me decepcionou um pouco: Eu não soube antes sobre a existência de espaços reservados para artistas credenciados, estava tranquilo com meu passe livre para os 4 dias cedido pela ÉESI, escola na qual estou estudando por aqui. Como perdi o primeiro dia do evento, quando tomei ciência já era tarde pra correr atrás dessa credencial (aparentemente deveria apresentar na prefeitura alguma publicação, Beladona serviria pra isso), então não pude frequentar os espaços onde os editores estariam mais acessíveis e confesso que foi bem frustrante, pois por mais que eu quisesse curtir o festival como um todo, havia me preparado de várias formas para reservar um tempo para fazer contatos e apresentar meus projetos. O networking fora dali era difícil, até mesmo na “nigth” existia uma estrutura temporária de acesso restrito a profissionais que era mais frequentada pelas pessoas já inseridas no mercado, ou seja, mesmo a sorte de esbarrar com alguém no bar certo foi por água abaixo. No pavilhão principal, consegui com muito custo apresentar meu trabalho para um editor que fez uma sessão de avaliação improvisada no chão de um dos corredores, mas no geral quando você falava com alguém nos stands eles diziam que o editor não estava ou não atenderia ninguém ali.

Mas passada a parte chata, vamos ao que interessa: O Festival é gigante e incrível! Nesse pavilhão das editoras grandes, é possível ver como o povo aqui consome quadrinhos, pois todos os stands estavam sempre lotados com muita gente comprando livros e pegando filas enormes para conseguir seus autógrafos (aliás, vale a nota de que as HQs americanas de super-heróis realmente não são o gosto da galera por aqui. No stand da Panini a fila de autógrafos com Chris Claremont era pequenina). Todos os stands tinham seu próprio espaço para autógrafo, colocando cinco ou mais artistas de uma vez (a Delcourt deveria ter uns 15 de uma vez, sem exagero) e, mesmo com todas essas dezenas de seções rolando paralelamente, todas as filas eram cheias ou lotadas. Além disso, fiz um pente fino de estudo do que é publicado por aqui (não comprei nada porque né… To vivendo aqui com dinheiro contadíssimo) e fiquei assombrado com o alto nível dos artistas. As editoras grandes não brincam em serviço, são extremamente criteriosas e mesmo assim é possível encontrar uma vastidão de artistas, todos num nível muito alto. Definitivamente, o mercado editorial por aqui não é para amadores.

No stand de artistas e editoras independentes, um deslumbre visual, desde a concepção do espaço até a pluralidade de publicações em diferentes formatos e estilos. Também bastante lotado, pelo que pude levantar de informação em algumas conversas, o pessoal indie vendeu muito bem por aqui. Sempre que estive no pavilhão ele estava um verdadeiro formigueiro! Nem todos os stands sempre lotados, mas com bastante circulação de pessoas. Quanto ao nível de publicação, posso garantir que, em nível de cenário independente, o abismo não é tão grande (digo como um todo, porque temos muitos artistas num nível já próximo ou superior a muito do que vi, mas a ponto de encher um pavilhão ou artists alley inteiro, a qualidade ainda varia muito em comparação) e se mantivermos a curva de evolução dos últimos anos, chegaremos num lugar bem legal a nível de qualidade, porém cabe aos artistas nacionais terem a gana de evoluir sempre e não se acomodar. Nesse pavilhão vi e conheci gente do mundo todo, aliás no segundo dia do festival um camarada da Dinamarca deu a excelente dica de chegar um pouco antes do fechamento e permanecer por ali, e foi incrível: Vários dos stands de artistas de fora da França recolheram seus quadrinhos e serviram bebidas e comidas típicas! México e Chile representaram de uma maneira muito legal o povo latino americano, alemães ofereceram sanduíches de línguiça e chopp, suecos e escandinavos bebidas quentes e deliciosas, entre outras coisas muito bacanas!

Agora vou dar uma palavrinha sobre um ponto fortíssimo do festival na minha humilde opinião: As exposições! Em diversos espaços espalhados pela cidade era possível encontrar exposições incríveis da programação oficial do festival, e em diversos espaços alternativos como cafés, bares e pequenas galerias de arte, exposições paralelas. Vou falar sobre o que me tocou mais: as oficiais. Eram cerca de 15 exposições, todas elas muito bem organizadas e com um volume grande de material original dos autores. Destaco a seguir as 4 que mais mexeram comigo: Will Eisner, ídolo supremo, numa exposição que está sendo considerada a maior de sua obra até hoje e que felizmente vou ter a felicidade de visitar diversas vezes pois ela ficará por aqui até Outubro, Kazuo Kamimura, um mangaka extraordinário com um trabalho lindo e sensível que me cativou demais, Hermann, um artista de altíssimo nível, que concorreu por décadas com o próprio Moebius e que também foi bem impactante pra mim a nível pessoal e por fim, Alex Alice e seu magnífico Le Château des Étoiles, uma ficção steampunk de encher os olhos… Sério, me faltam palavras pra definir a dimensão do trabalho desse homem (ao menos nos originais, não peguei um livro na mão).

Posso afirmar com certeza absoluta que não dá pra ser o mesmo depois disso. Eu, como um artista que está buscando especificamente aprimoramento, alcançar um novo patamar pro meu trabalho e subir degraus de qualidade, ter contato com a produção de altíssimo nível das publicações e poder apreciar exposições dessa grandeza foi sensacional… Isso mexeu comigo e me fez ter certeza de que tenho muito arroz e feijão pra comer ainda, mas ao mesmo tempo me deixou faminto e empolgado para correr atrás desse crescimento. Não posso prever o quanto meu trabalho vai melhorar, mas que com certeza me deu outra dimensão de como é importante dar o seu melhor sempre, isso deu. Outra certeza: na produção de BD aqui não cabe preguiça! Dá pra sentir na pele e se arrepiar ao constatar como essa galera ralou para chegar nesse nível, o esmero e suor de cada página. Acho que para muitos artistas do Brasil ainda falta isso, por diversos motivos. Um deles é que quase todo mundo tem que trabalhar com outras mil coisas para garantir o sustento e faz quadrinhos quando pode. Mas seria importante, para quem quer realmente ajudar a construir um mercado mais forte e de alto nível, tomar a consciência de importância de buscar o autoaprimoramento e fazer sacrifícios ainda maiores do que o que todos nós já fazemos. O nosso potencial é gigantesco, temos muito desafios ainda, como o crescimento de publico consumidor e distribuição. Aliás, uma coisa que chamo a atenção é: Na minha avaliação a formatação de mercado daqui dificilmente caberia no Brasil, acho que uma cena independente forte como a que temos, se conscientizando cada vez mais e fortalecendo a relação direta entre público e autor pode ser uma alternativa muito mais interessante, visto que o funcionamento da relação autor/editora/distribuição/livraria no Brasil dificilmente vai ajudá-lo a tirar seu sustento principal.

Por último, vale destacar como as ruas da cidade continuaram super legais depois do fechamento dos pavilhões: Diversos bares e restaurantes, alguns espaços alternativos com festas, enfim, uma vida noturna totalmente atípica pros padrões daqui. Um colega comentou em um soirée (é como eles chamam as festas aqui) que por 3 ou 4 dias ele parecia estar de volta a Paris. Eu particularmente marquei ponto no Spin-Off, um lugar mais underground e cheio de estudantes e alguns artistas indie, onde a cerveja custava um valor que eu finalmente pude pagar, mas confesso que o som por aqui é bem diferente do que costumo curtir, muito eletrônico pro meu gosto, mas deu pra matar a saudade de mexer um pouco o esqueleto e trocar bastante ideia com gente bem diferente. Na noite de domingo as ruas já estavam vazias, os bares fechados e a cidade voltava ao seu estado de apatia tradicional… Felizmente o Spin-Off ainda teve sua saideira.

Não sei se voltaria pro evento alugando stand e tudo o mais, pois imprimir algo pra cá, aluguel do stand, estadia e passagens seriam um custo que eu dificilmente conseguiria cobrir. Os únicos brasileiros que vi em stands foram o Marcelo Quintanilha e a Cynthia Bonacossa, que publicam por editoras do pavilhão alternativo. Mas a experiência de estar no Festival de Angoulême é sem duvida algo que vai ficar marcado. Ainda temos muito chão pela frente, mas se cada um fizer a sua parte com convicção e dando o máximo, vamos encontrar nosso lugar ao sol. Certeza!

OBS: Desculpem pela ausência de fotos. Sou péssimo nisso e acabo vivendo as coisas sem esquentar pra tirar foto, guardo tudo na memória e no coração, o que não ajuda muito na hora de fazer uma postagem dessas né?!

O meu camarada Rapha Pinheiro, que também está estudando por aqui fez um vídeo legal com as impressões dele sobre o Festival:

Ele também não colocou imagens do Festival, mas gravou alguns vídeos durante o Festival que em breve devem pintar no canal dele, apresentando os pavilhões e mais algumas outras coisas bem legais.

 

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