[SL] The Fantastic Flavour Chronicles: O Maior Presente de Todos

 ​Robeaux olhava fixamente os vitrais que decoravam a entrada do grande salão do rei de Sona. Ele os achavam bregas para caralho.

​O desenho dos pequenos anjos circulando os céus de cristal, os guerreiros heroicos e destemidos representados por cores fortes e vibrantes, subjugando os demônios horrorosos e torpes sob seus pés enquanto levantavam suas espadas aos céus, provavelmente acompanhados de trombetas irritantemente angelicais e saudados por uma profusão de admiradores salvos (que por algum motivo que Robeaux não conseguia conceber, eram representados como miniaturas de gentes perante os guerreiros, que ocupavam quase a porra do vitral inteiro), que, embora na escultura não possuíssem olhos ou expressões discerníveis, na mente do guerreiro certamente teriam uma expressão esbugalhada na cara, mais ou menos como se estivessem presenciando a alvorada de uma divindade – ou uma cabra parir um burrico após trepar com um porco.

​Para Robeaux, aquela era uma das obras de arte mais bregas que havia na vida. Porque heroísmo não servia para porra nenhuma. Heroísmo não salvava vidas, mas as arrancava mais rápido. Foi o heroísmo que matou o seu irmão mais novo. Foi a porra do altruísmo que mutilou quase todo seu grupo de aventuras.

​Foi essa desgraça, chamada bondade, que os afastou para sempre.

​Tirou a garrafa de rum de um espaço que tinha entre a armadura de placas reluzente – uma muito melhor do que a sua original, diga-se de passagem, entregue apenas para se apresentar perante o rei – e tragou um longo e ávido gole. Os consortes reais fingiram profissionalmente a inexistência daquele ato, o que deixou Robeaux ainda mais irritado. Ele queria que todos ali ficassem tão putos quanto ele. Ele queria cuspir na cara de cada um daqueles patifes de nariz empinado, que julgavam que ser escravo de um rei era menos escravidão que qualquer outra. Mas suspeitava que o cuspe seria recebido com um sorriso e quem sabe um obrigado. Todo lacaio afinal, comemora suas humilhações.

Ele considerava a possibilidade quando sentiu um toque em seu braço.

  • Polette, está tudo bem? – o olhar de Malquíades estava carregado de preocupação em direção ao amigo, olheiras profundas que desfiguravam algumas das tatuagens místicas que tinha no perfil esquerdo. Metade do cansaço, no entanto, tinha a ver com as dificuldades de vestir o robe místico com apenas um dos braços, perdido na aventura. Ele tinha que acordar pelo menos duas horas mais cedo para vestir aquele montante de roupas, mas nunca admitiria precisar de ajuda
  • – Parece estar mais agitado que o normal. Porque não larga seu “suco” um pouco?
  • Olha aqui seu monte de m…( Robeaux armou a raiva, mas ela desvaneceu antes que o primeiro xingamento saísse de sua boca). Malquíades aguentaria toda sua boca suja, ele sabia, mas não podia trazer a si o direito de insultá-lo. A cicatriz perto da boca do mesmo lado de onde havia perdido o braço deixava o sorriso horrendo, mas era uma das poucas coisas que lhe acalmava nos últimos dias. Mais por conta da pena que sentia pelo companheiro do que pela culpa do braço ( perna ou cabeça) perdido não ter sido seu. Apertou os lábios inspirando forte e guardou a garrafa – Estou bem Malq. Não precisa se preocupar! Fingiu um sorriso amarelo que não confundiria nem um daltônico – Estou apenas brindando por quem não pode chegar até.

Malquíades não acreditou na desculpa pobre por um segundo, mas reconhecia o sofrimento do amigo.

- Sei que não vai ficar feliz por isto mas… Helga não me perdoaria se eu não o lembrasse… Feliz aniversário!! Malquíades puxou um objeto de seu bolso, uma placa de prata que fez o coração de Robeaux pular no peito.

- Isso é…

- Ela ia querer que guardasse isso. Foi o que conseguir salvar do…A voz de Malq morreu. Constrangido, entregou a placa para o companheiro, que não teve como recusar o presente.

No verso da placa, uma simples bijouteria de metal que se encaixava com uma que o próprio Robeaux tinha pendurada ao pescoço ali, se lia na língua saudosa “Somos dois em um só”. O guerreiro selvagem engoliu em seco, forçando as lágrimas a continuarem em seus olhos enquanto as mãos passeavam por seu moicano trançado e depois pela barba espessa. A pele de ébano contrastou com a mão clara do amigo que apertou de maneira camarada seu ombro forte. Foi o mais próximo que chegaram de trocar um abraço em toda a vida. Malq afastou os cabelos azuis do rosto com uma face rígida e seca, o que fez Robeaux lhe agradecer imensamente em silêncio. Aquela era a maneira de seu amigo respeitar seu espaço e sentimentos.

Usando seu cajado da maneira que um cajado normal seria usado – o que te irritou, um item mágico senciente, orgulhoso e poderoso, mas que por suas últimas falhas preferiu aceitar ser usado como apoio de caminhada – caminhou ao lado do companheiro quando os portões se abriram.

Entraram ladeados dos Cavaleiros Purpuras, a ordem mais elevada de cavaleiros do reino. Mais afastados estavam soldados reais que protegiam a guarda mágica dentre outros habilidosos participantes que compunham a elite do reino, todos altivos e dignos, se pondo entre os recém nomeados heróis do reino e o público que os aplaudia: fidalgos, damas, duques e uma infinidade de burgueses de famílias mais ou menos ricas. Seus aplausos eram audíveis, mas Robeaux notou a animação maior vinda dos jovens e dos criados que ali tiveram sua única chance de expressar sua afeição pelo grupo reduzido. Afinal, pensou, aquele reino não tinha espaço para a comemoração dos camponeses sob o teto do castelo.

A raiva no peito cresceu ainda mais, acompanhando o crescente das trombetas.

-“TODOS DE JOELHOS PERANTE NOSSO REI” !!!! Ecoou a voz do consorte real “ANDALUIZIO TERCEIRO, SENHOR DE SONA, PROTETOR DAS TERRAS ALTAS” para ser acompanhado pelo som pomposo dos metais, soprados com força e sem interrupção. Todos se puseram de joelhos, Robeaux incluso. Sua raiva era pulsante, mas não o suficiente para cuspir na cara de um reino inteiro apenas para negar a etiqueta. Em alguns segundos, passos ecoaram ante o fim do barulho das trombetas. O guerreiro selvagem ergueu a cabeça para presenciar a chegada do Rei e tomou um susto ao ver a figura decrepta que chegava amparada pelo Conselheiro do reino.

O rei nunca havia sido alguém altivo. Seu povo não o odiava, mas tampouco o admirava ou enaltecia, muito em parte por seu carisma apático. Quando Robeaux o conheceu pessoalmente, há anos atrás, o grupo que o acompanhava era sensivelmente mais numeroso e menos experiente. Lembrava bem de seu irmão repetindo apenas com o mover dos lábios o título que os súditos se referiam ao Rei Andaluizio: “O rei de Algodão”, por sua cor exageradamente branca e sua estrutura física macia e inautoritária. Existiam outros que chamavam este de “reinado de ninguém” por criticar justamente a presença do monarca – para eles, a presença do rei era praticamente nula. Mesmo quando falava para os camponeses ou para a burguesia, não se deixava notar. Tinha um tom de voz naturalmente baixo, embora uma dicção clara e um preciso uso do vocabulário. Se tivesse capacidade musical, estaria no coral feminino, sem dúvida. O problema era tal que a voz do vizir real – que fazia as vezes de anunciante – era mais conhecida que a do próprio rei.

No entanto, o homem que via a sua frente agora era apenas uma sombra do homem que conhecera antes. O Rei De Algodão poderia ser chamado agora de Rei de Barbante. Magro, mais frágil do que nunca e mesmo a capa real parecia capaz de sufocar-lhe. A coroa parecia cruelmente pesada em sua cabeça, e a tez branca já assumia um tom acinzentado que contrastava de maneira agoniante com os olhos injetados e cansados. Parte do cabelo, pelos deuses, parecia ter começado a cair! Chocado com a visão, desconcentrou-se e a mente automaticamente vagueou, pensando no que Helga diria sobre o pobre homem.

A boca secou instantaneamente. A garganta prometeu uma revolta amarga e os olhos ficaram mais brilhantes que o normal. A boca abriu e fechou, dentes repuxando os lábios como cadeados cerrando uma porta pesada que escondia algo feio, revoltante e proibido: Seu grito, seu choro e sua fúria.

-“Mas eu prometi a ela” ouviu-se sussurrando e o ódio enraizado misturou-se com a apatia da tristeza, impedindo que o homem implodisse. Sentiu um toque discreto no braço, e lembrou que não estava só – Ali estava Malquíades, repartindo sua dor, refreando sua cólera.

Uma voz fraca, magicamente ampliada, começou a ecoar pelos salões. Aparentemente o rei queria se pronunciar de qualquer maneira, mesmo que isso significasse esvaziar o cofre real com mágicas raras e inúteis:

-“NOBRES QUE AQUI SE ENCONTRAM, CAVALEIROS DE TODO O REINO, REPRESENTANTES DO POVO”! Vibrou o anuncio na voz rouca do rei – curiosamente mais encorpada após sua súbita deterioração.

  • “RECEBEMOS HOJE OS HERÓIS DO REINO, QUE RETORNAM DE SUA MISSÃO”! Aplausos ecoaram, mas nada que denotasse felicidade. O clima era de pura tensão.
  • “DEIXEMOS QUE FALEM SOBRE SUA JORNADA”! Encerrou o rei sua fala inicial.

A manobra óbvia irritou Robeaux. Ver o grupo de sete reduzido à um maneta e dois feridos certamente inspirou medo. O rei, naquele momento, queria se desvencilhar de uma possível falha, deixando a explicação para o grupo enquanto se preparava para colher os louros de um possível sucesso. Rilhou os dentes enquanto se levantava, mas antes que começasse, a voz de Malquíades ecoou no salão:

- A todos que nos conhecem por nossos títulos e aos que são novos a nossa fama, somos A Lança de Khan, companhia de aventureiros adotada por este reino. Ordenados diretamente pelo rei, nos pusemos a buscar o tesouro escondido d’A Caçadora, uma de nossas divindades primordiais, movidos pela promessa divinatória que seus poderes miraculosos poderiam evitar uma guerra contra nosso reino! – A voz do feiticeiro era altiva e clara, captando a atenção de todos no lugar.

-“Nossa viagem teve início nas ilhas de Coniciens, onde obtivemos com os Miseris o primeiro trecho de nosso destino”! Um murmurinho espantado se espalhou pela plateia.

  • “Velejamos até Fugiterrae pelo mar de Oblitus, desafiando seus enormes perigos pois tínhamos noção do grande perigo pelo qual passava o reino. De lá, obtivemos a permissão do avatar d’O Viajante e embarcamos no Mercado das Nuvens”. A plateia se surpreendeu ainda mais. Poucos eram aqueles que possuíam riqueza o suficiente para pagar uma passagem para Vectora, quanto mais receber um convite e salvo conduto por ela.
  • “As maravilhas da cidade voadora são intermináveis, mas nem mesmo lá encontramos um refúgio completo. Logo nos descobrimos vítimas de um atentado do reino dos Certamine, um dos aliados na guerra que se…” AH HEM, um pigarro do rei interrompeu o discurso

- CREIO QUE TODOS AQUI SABEM DE NOSSA ANIMOSIDADE CRESCENTE COM BAVARÓSSIA, CERTAMINE E O ARQUIPÉLAGO DE SOLEM. POR FAVOR, SEJA BREVE – ecoou a voz ampliada do rei. A parca educação não tentava esconder sua impaciência. Malquíades e Robeaux se entreolharam, um constrangido e o outro ultrajado e o feiticeiro continuou:

-“Pois bem… Tivemos diversas batalhas cruéis e custosas… e infelizmente uma baixa em Inntredenijord. Num dos reinos dos anões perdemos Ardas, um dos irmãos do corvo.” O choque percorreu o salão não mais rápido que a lembrança pela mente dos amigos. “Com o pesar da perda seguimos nossa missão, atravessando a cordilheira olimpia até o mar de Esoteriki Thálassa”. A garganta de Roubeaux apertou. Chegava perto de reviver com palavras aquele terrível momento. O maxilar contraía enquanto o salão explodia em murmúrios. Eles realmente chegaram lá? Se perguntavam.

- SENTIMOS SUA PERDA, MAS APRESSE TUA HISTÓRIA – a impaciência do rei não era comedida. O bárbaro olhou para ele com profundo ressentimento.

-“Er… Em sumário… conseguimos o tesouro da deusa Caçadora… pelo preço de Ardas, Philleus, Gaston… e Milady Helga.

O salão pôs-se em silêncio. A morte de alguns dos maiores heróis do reino chocou a todos. Helga e Gaston, principalmente, eram símbolos das virtudes do grupo e a noticia de suas mortes eram chocantes. Mas ninguém sentia mais do que Robeaux.

-“Prometa-me que vai viver” disse ela antes de partir. Ele havia prometido, porque afinal era o que lhe restava. Honrar seu desejo. Mesmo a morte de Gaston, seu irmão mais novo, empalidecia diante da perda dela. Gaston e Robeaux já esperavam sua morte em batalha. Estava no destino que ambos haviam abraçado desde que aprenderam a brandir uma adaga. Mas Helga? Lembrava-se dos olhos carmim do pai dela, atônito com a notícia, olhos fixados nos do bárbaro.

-“Mas não era a hora dela!” Robeaux concordava. Todos se concordavam.

Menos o rei, aparentemente:

  • “Mas é ótimo! Onde está então, o tesouro?”. O bárbaro se pôs a sair, mas Malq o impediu. Trocaram olhares tensos que prometia uma briga séria após aquilo e o feiticeiro chamou o tesouro com o olhar fixo.

Uma arca adentrou o recinto. Nenhum dos heróis sabia o que havia lá, apenas que valeria o destino de seu reino. Para abri-la, apenas uma sacerdotisa da deusa poderia fazê-lo, membro inexistente no grupo. Aplausos ruidosos acompanharam sua chegada, interrompidos apenas para a execução do ritual misterioso.

-“SIM” !! Ecoou a voz ampliada do rei, aparentemente esquecido da magia. Seu rosto parecia conter uma felicidade indecorosa e selvagem que incomodou os heróis. Ninguém pareceu dar tanta importância a isso no entanto; Todas as atenções eram para o ritual, que embora complexo, não demorou para ser finalizado. A arca abriu-se sozinha, e finalmente todos viram dentro dela, brilhado e flutuando em pleno ar…

Um bolo. Um simples bolo. De aparência ordinária, mesmo que com a mágica óbvia nele, deixou a todos atônitos. Ninguém conseguia expressar uma palavra, à exceção da sacerdotisa…

- Mas QUE… PORRA… É… ISSO? – e de Robeaux – Nós enfrentamos uma viagem inteira… monstros… demônios… guerreiros e armadilhas… Para você comer a PORCARIA DE UM DOCE FEIO?

- NÃO SABES O QUE DIZ, SELVAGEM! – explodiu a voz mágica do rei, num tom bizarro e anti-harmônico enquanto falava – O QUE VÊ AGORA NADA MAIS É DO QUE O MAIOR DOS MILAGRES QUE OCUPA NOSSO MUNDO! – disse o rei ignorando a balbúrdia que se formava na plateia.

- A PORRA de um BOLO VOADOR? Vem aqui que eu vou ENFIAR ESSE MILAGRE N… – diante do tom claramente ameaçador, os cavaleiros se moveram para interceptar Robeaux ao mesmo tempo que Malq ia puxar seu braço. Mas O ritual finalmente teve seu fim, e todos ficaram pasmos com o resultado.

Um ciclone de chamas irrompeu das velas que estavam no topo do simples bolo. Um caleidoscópio de chamas, raios e vento se chocou com o teto, e ninguém, nem mesmo o bárbaro furioso, ousou se mexer. Malq apenas pode resmungar numa voz de assombro:

-“Deuses… é um desejo da lua…”. E assim como começou, terminou. E acima de onde estava o doce divino, se encontrava uma mulher de pele de cobre, feições ferinas e asas nos pés – Um avatar.

-Mortais barulhentos, pequenos homens e mulheres, covardes e guerreiros. Eu sou Atalanta, uma das favoritas d’A Caçadora e vim aqui respeitar seu chamado. Dentre vocês há quem obedece os requisitos da benção da Lua!

Disse a entidade numa voz metálica, como que para confirmar a tese dela inteira ser feita de cobre. Todos continuavam boquiabertos, e mesmo a sacerdotisa, não saberia bem como reagir ao aparecimento de Atalanta:

-“M-meus caros anfitriões, A B-benção da lua é…”

Começou, mas o avatar a interrompeu imediatamente:

-Não há quem saiba da tradição aqui? Há quanto tempo a tradição não é honrada, para que ninguém saiba do que se trata minha presença? Fique quieta criança, que não preciso de papagaios para falar por mim! Disse rispidamente.barbarian_comm_by_yamao-d5ooj60

-“Aos que não sabem, A Caçadora também é a parteira de todos nós, A Lua ela mesma. E em sua benignidade, concedeu a todos aqueles que nasceram sob este céu um desejo em sua vida inteira, que deve ser desejado durante o dia que representa o ciclo de seu nascimento, um poder dividido entre todos que participam do ritual. Hoje no entanto, temos participando de nosso ritual apenas… duas almas”

- SIM, EU, REI ANDALUIZIO… E MAIS ALGUÉM!? – se surpreendeu o rei. Aquilo não estava em seus planos – QUEM OUSA ATRAPALHAR ESTA CERIMÔNIA REAL? – dirigiu sua fúria aos homens e mulheres do salão. Ninguém teve coragem nem mesmo de negar, mas Atalanta resolveu o dilema:

-O selvagem de cor de ébano! Proferiu que teve a audácia de insultar o presente da deusa.

-Agradeça por ainda estar dentro de teu ciclo, mortal, do contrário seria minha presa na caçada noturna durante alguns séculos! Completou a entidade.

A raiva subiu na garganta de Robeaux, mas o instinto lhe dizia claramente que puxar briga com ela era suicídio. O olhar de Malq implorava por sua paz de espírito, mas ele não era chamado de Fúria Negra sem motivo. E afinal, naquele ponto morrer não era uma má ideia.

-“O nome deste selvagem é Pollete Robeaux, um dos que voltaram vivos do desafio ridículo que foi encontrar seu bolo mofado” disse entre gritos “E, para seu governo, sua realeza de leite, meu aniversário foi ontem. Não quero nada com seu desejo estúpido” cuspiu no chão.

- ENTÃO ESTAMOS RESOLVIDOS E PODEMOS COMEÇAR A CERIMÔ…

  • O desejo já é seu para usar ou não, humano tolo! Desperdice suas chances se quiser! Atalanta ignorou Andaluizio pois seu ciclo se encerraria em alguns minutos.
  • Chega de impropé O poder do milagre será dividido entre vocês dois, relativos aos ciclos que ainda têm. O ciclo de Andaluizio começa agora, enquanto o seu está quase no final. Isto dá a Andaluizio o direito de aproveitar a chama de 99 nove velas da benção de Artêmis… e ao selvagem, meia. Comam e desejem!! Terminou de rosto fechado.

- E QUE CAPACIDADE ESTÁ NO ALCANCE DE 99 VELAS, ADORADA ATALANTA?

-Praticamente qualquer coisa!

Disse a entidade com orgulho entonado em cada palavra.

- E apenas uma? – perguntou Robeaux, forçando a calma para não estressar ainda mais Malq.

Algo simples. Como um teleporte distante ou apagar uma memória de qualquer coisa que quiser.

Os olhares trocados entre todos no salão, nobreza, serviçais ou cavaleiros – Malq incluído – não poderia ser mais constrangedor. Um homem que passou pelo inferno e ganhou a possibilidade de encontrar as chaves do armário da avó, enquanto um rei decrépito tinha possibilidades ilimitadas. Mas ninguém ousava falar nada afinal: Era o desejo deste rei que salvaria sua nação da guerra. Robeaux, no entanto, recebeu a notícia com uma surpresa profunda.

842c5495fe81228e4708ba5addaa0521Esquecer de qualquer coisa. De qualquer dor. Qualquer Perda. Sentiu um peso inesperado na palma da mão, e abrindo-a, viu sua dose de magia: Ali, um pedaço do modesto bolo e meia vela negra acesa representando o tempo que tinha. Seu coração pesou. Mas o pensamento se perderia diante dos próximos acontecimentos…

  • GRANDE ATALANTA, REPRESENTANTE DA CAÇADORA, EU TENHO MEU PEDIDO – A pomposidade de Andaluizio ainda irritava a todos, mas Atalanta ignorou-a e acenou para que continuasse. A voz ampliada magicamente continuou:
  • MEU REINO PASSA POR DIFICULDADES ENORMES. ESTAMOS ÀS PORTAS DA GUERRA. UMA ALIANÇA INJUSTA SE FORMOU E PLANEJA NOS EXTERMINAR… E POR NÃO IMPEDIR O QUE NUNCA NINGUÉM PODERIA, FUI E SOU CHAMADO DE REI FRACO, TOLO, INEXISTENTE. ME CHAMAM DE REI DE ALGODÃO, ELES…O silêncio constrangido ocupou a sala. A popularidade do rei, afinal, era ínfima, e em poucas semanas um golpe de estado já estava para acontecer.
  • E AQUI ESTOU EU, COM A CHANCE DE MOSTRAR A TODOS O MEU REAL VALOR E, COM UM MILAGRE, SALVAR A TODOS! Aplausos tímidos começaram a soar. Afinal de contas, aquele homem estava sacrificando um poder inimaginável apenas para ajudar sua nação.
  • E, SEGUINDO MEU CORAÇÃO PARA REALIZAR MEU DESEJO, VENHO AQUI CONFESSAR QUE EXISTE APENAS UMA COISA MAIS VALOROSA QUE SER UM REI! Aplausos, emoção, lá Não era aquela, afinal, uma prova de sua dedicação como rei? Logo todos estavam dispostos a dar seu voto de confiança em Andaluizio. E sem dúvida uma era de ouro estava para nascer no reino.

Ou não.

- QUE É A SENSAÇÃO DE ESMAGAR MEUS INIMIGOS. ATALANTA, DÊ-ME O PODER DE UMA DIVINDADE PARA QUE EU DESTRUA MEUS INIMIGOS E DETRATORES NA CORTE, COMO ESTE SELVAGEM IMUNDO!

Choque. Silêncio. Que? O que ele desejou? E por alguns segundos ninguém se mexeu. Demorou meio segundo a mais para que todos raciocinassem, afinal, que aquele sempre foi o plano de Andaluizio. O pequeno merdinha tinha enganado a todos. Enganado, e estava prestes a se tornar um deus, e assim poder matar todo mundo ali e…

Um bom desejo, mortal. Mas mesmo todas suas velas não dariam a chance de você ascender à divindade. O choque agora atingiu Andaluizio com a força de um tiro. E logo a rebordosa estava feita. Copos, taças, frutas, pedras, pratos, tudo era jogado no rei! E seus cavaleiros nada faziam para defende-lo. Os mesmos só não o estavam esfaqueando pelo simples juramento e não saber lidar com os sentimentos conflitantes. O mesmo não se aplicava a Robeaux, que aproveitou a chance para puxar seu machado e correr para cima de Andaluizio com um rosnado ensandecido. Só ele tinha reparado que devia evitar que o crápula fizesse algum desejo tão perigoso quanto o último. No entanto, o estrago já estava feito. Contente-se com meia-divindade, então disse Atalanta com um sorriso cruel antes de sumir.

-“ReeeaaAAAGHH”!!!! Robeaux pulou em cima do rei com o machado em pleno ataque devastador, apenas para ser arremessado metros atrás por uma energia violenta que envolveu o corpo de Andaluizio. Levantou do chão após o choque forte, e vendo a cena a sua frente só conseguiu dizer: -“puta merda”

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O antigo rei de algodão agora era uma criatura enorme, corpo de pura energia e músculos divinos. Sua risada encheu a todos de terror. Malquíades se pôs ao lado do companheiro, com o rosto horrorizado com a situação:

- “Que diabos vamos fazer?”

- Vamos? Nós não vamos nada – Robeaux pôs as mãos nos ombros de Malquíades – você vai sumir daqui! Vá preparando nossa fuga. Eu vou logo atrás de você! – ambos olharam para o semideus Andaluizio, que admirava seu novo corpo com fascinação. Todos no salão estavam congelados

  • Não vem com essa conversa mole pra cima de mim Robeaux. Eu te conheço! – Malq olhou no fundo de seus olhos – você vai pra cima daquela coisa, não é? – Robeaux ensaiou uma mentira, mas antes que o negro respondesse, Andaluizio resolveu testar seus poderes na plateia indiscriminadamente. A visão dos raios saindo dos olhos e boca da criatura era arrepiante.
  • Nada de me deixar pra trás vamos nisso juntos! – E Robeaux reconheceu a própria loucura nos olhos de Malq. Só pode concordar.

Andaluizio se divertia disparando raios divinos – alguns diriam semidivinos, imagino – em antigos detratores e até alguns apoiadores que ele não suportava, mas por motivos políticos tinha de suportar.

-“Mas eu apoiei seu reinado!” DEUSES NÃO PRECISAM DE VOOOOTOOOOOOOOSSSSS ecoou sua voz mágica e aterrorizante, embora ainda estranhamente afetada. Existem coisas que nem a divindade muda. Mesmo não mirando alguns dos presentes, o excesso de poder criava casualidades mesmo assim. Logo os Cavaleiros do reino não tiveram outra alternativa que não combater a ameaça à população: O transfigurado rei Andaluizio. Com exceção dos cavaleiros de elite, a maioria encontrou seu fim ao batalhar contra o ser, cuja energia transbordava e carbonizava qualquer atacante que não tivesse proteção o suficiente contra a magia. E até o momento, o semideus não havia sofrido qualquer dano. E, no momento que a criatura, que crescia a olhos vistos, já chegando aos 3 metros, se preparava para esmagar uma serviçal particularmente amedrontada que estava caída no chão…

-PAGUE POR SUA INSOLÊNCIA! Gritava por achar que ela havia lhe jogado frutas anteriormente – um grande dragão mágico feio de água o atingiu.

-“RRAAAAAAAARRGHHHH”! Novamente o urro de Robeaux preencheu o salão, e numa velocidade estonteante, ele apareceu ao lado de Andaluizio, lhe aplicando um tremendo golpe com o machado. O rei e semideus, desequilibrado, foi lançado alguns metros para trás no chão. Atônitos, todos se surpreenderam ao ouvir Malquíades berrando enquanto preparava outro feitiço com apenas uma das mãos

- Evacuem o castelo! – berrou, rosto tenso e concentrado – retirem mulheres e crianças primeiro! Vamos segurá-lo aqui! – e conjurando centenas de projéteis escuros e brilhantes, foi para cima da criatura mais rápido do que se suporia para um manco.

Robeaux travava uma luta desesperada contra Andaluizio. O instinto dizia: Se for atingido uma só vez, fim de luta. O pensamento suicida de antes não pesava agora, no entanto. Preferia morrer bebendo mijo de rato do que para aquele patife.

-“Três vivas ao rei de algodão”!! Gritava em sua voz quase animal enquanto o atingia com os golpes e corria para evitar os contra ataques. Havia desperto uma de suas técnicas mais poderosas, a fúria totêmica, que perdia em força apenas para a Primal e o estado de Berseker. No entanto, ambos os estados mais poderosos lhe nublavam a mente, e aquela não era uma batalha de força, mas sim uma tentativa desesperada de salvar vidas.

-SEU MALDITO INSETO- ribombou a voz do rei com fagulhas enormes sendo emitidas de seu corpo. Mesmo com suas resistências sobre-humanas, Robeaux só resistiu graças a magia de Malq.

-COMO OUSA ME INTERROMPER ENQUANTO PUNO ESTES INFIÉIS? QUEIME DESGRAÇADO! Um novo jorro de energia se perdeu na sala. Estava claro que o rei ainda se acostumara com os novos poderes.

Os talhos enormes que Robeaux causava, suficientes para matar monstros poderosíssimos em apenas um golpe, fechavam em questões de segundos no corpo do semideus. Seu machado começava a dar sinais que não resistiria a batalha, apresentando várias rachaduras. Mesmo assim não diminiu seu ritmo. Mirava juntas que eram estraçalhadas – apenas para se regenerar instantaneamente – e seguia em frente no fluxo de ataques. Arrancou o braço, mudou de posição e seguiu em direção a perna, circulando novamente o inimigo e atingindo costas, coxa, cintura, o que estivesse ao alcance.

Num momento, o golpe de Andaluizio pareceu poder alcança-lo, mas os projéteis de Malq interceptaram seu braço. O rei grunhiu, mas foi surpreendido outra vez – os soldados reais de elite avançaram e o atacaram com tudo que tinham, flechas, espadas, magia, o derrubando mais uma vez no chão. Uma das espadas empunhada por um cavaleiro mais afoito acertou seu rosto, arrancando um grito.

-CHEGA! EU NÃO SEREI HUMILHADO! berrou, e num gesto amplo, Andaluizio emitiu uma onda de energia terrível. A magia de Malquíades protegeu Robeaux, esvaecendo em seguida. Os cavaleiros reais no entanto foram destroçados, exceto o capitão da guarda, que possuía a armadura mais poderosa. A fúria do ataque não cessou aí. Aproveitando o desequilíbrio de Robeaux, Andaluizio rugiu, e de sua boca um jorro de ar soprou o bárbaro contra a parede do salão. Dois pilares foram destruídos no processo, o teto já ameaçando desabar.

-EU SOU O REI ANDALUIZIO, PROTETOR DAS TERRAS ALTAS, NOVO DEUS DE SONA-rugiu desabalado.

Robeaux levantou rápido, mas sentindo que algumas costelas estavam partidas e o ombro certamente deslocado. Cuspiu sangue enquanto se punha em pé e percebeu imediatamente o seu fim: Aquele raio horrendo que saia da boca de Andaluizio estava se formando novamente, e da maneira que estava, não conseguiria se esquivar. Um momento de fraqueza sempre se dava após sua fúria se encerrar.

-“Acho que é isso” -pensou, enxergando a luz sair em câmera lenta do demônio que já fora rei. Não eram só seus sentidos super ampliados que agiam ali: Era o momento de percepção pré-morte, afinal. Era aquele o momento onde todos os seres tinham para relembrar a vida inteira… embora Robeaux tenha apenas relembrado poucos momentos. O juramento com o irmão. Os dias com os companheiros de aventuras. O sorriso dela quando disse “sim”. Robeaux estava em paz com a própria morte. Fez o que pode.

Era o que pensava quando, num mundo desacelerado, viu uma sombra se pôr a sua frente.

Queria implorar para que saísse. Berrar para que se salvasse, que ele não merecia o sacrifício. Mas a velocidade de seu corpo não era compatível com seus pensamentos. E numa fração de segundo, O Fúria Negra viu Malq, seu último companheiro, virar pó na sua frente.

Andaluizio levantou sem dificuldade, ainda maior agora (chegara a 3 metros), afastando corpos de cavaleiros das costas assim como escombros que caíram em cima dele, incólume.

-MAIS UM SACRIFÍCIO PATÉTICO. EU GOSTAVA DE SEU FEITICEIRO, SELVAGEM. PROVAVELMENTE O DEIXARIA VIVER SOB MEU JUGO. Disse num tom grave SUA- COMPANHIA CERTAMENTE É MAU AGOURO.

Robeaux não respondeu. Simplesmente se ajoelhou na frente das cinzas que antes eram seu amigo, ee63137c9441ef60c7cf85be47880a4d4 o cajado quebrado ao lado. Nem mesmo o artefato centenário havia resistido. E numa fração de segundo, seu mundo ficou vermelho. As pontas do moicano e da barba cheia ficaram brancas, e o estado de Berseker tomou conta. Superando a velocidade de Andaluizio em muitas vezes simplesmente se chocou contra o peito do semideus, e começou a atacar com seu machado.

-MALDITO!!!!! Berrou o monstro! E cada ataque soou como um trovão em seu peito. Um; Dois; Dez; Vinte; Cinquenta. Numa velocidade, força e fúria sobre-humanas Robeaux atacou cada vez mais em poucos segundos. O machado, uma relíquia mágica antiquíssima, não resistiu o esforço e quebrou, o que não parou o furioso: Puxou a espada do rosto de Andaluizio e usou-a para golpear seu peito. Queria comer o coração daquele monstro maldito, que por um capricho imbecil mandou seu grupo para a morte. Não raciocinava nada disso, mas sentia, ah como sentia. E durante seu grito primitivo, no único momento daquela noite onde algum sangue havia realmente sido arrancado de Andaluizio, este se livrou de seu atacante: Um disparo de energia que arrancou o braço da espada e parte da face de Robeaux. Com um golpe potente, foi despachado para longe.

Derrotado. Quase morto. A única coisa que o mantinha vivo era a fúria, que já começava a ceder, dando lugar a pensamento racional.

“Finalmente estou morto” pensou, mas ao contrário do que esperava, a situação não lhe trouxe alívio. Pois sabia que seus companheiros iriam querer que se livrasse da coisa imunda antes de morrer. É o que eles fariam.

Lembrou-se do sacrifício de Helga. Quando deu a vida para parar um monstro que nada tinha a ver com a missão, apenas para salvar uma vila indefesa do dragão.

-“Nossa vida tem que significar algo, não é?” perguntou ela, retoricamente. Agora ele entendia.

-TOLO. OUSAR ME DESAFIAR, QUANDO AGORA SOU PRATICAMENTE UM DEUS? APENAS ESTÁ TENDO O QUE MERECIA, ASSIM COMO QUEM ME DESAFIAR. EU HOJE SOU ANDALUIZIO, O MAIS PRÓXIMO DOS DEUSES. A DATA DE MEU NASCIMENTO E RENASCIMENTO SERÁ LOUVADA PELA ETERNIDADE! Disse o desprezível ex-homem em seus passos lentos. E enquanto se aproximava, Robeaux que procurava se agarrar em algo para se levantar e morrer em pé sentiu um peso familiar em suas mãos. E começou a rir.

-ZOMBA DE MIM, MESMO DIANTE DE SUA MORTE? ACHA QUE FARÁ ALGUM MILAGRE PARA ME DERROTAR? TOLO! DIGA-ME, MORTAL, ALGUM ÚLTIMO DESEJO? Mas a risada não parou.

Robeaux trouxe sua mão inteira até o peito e tocou o memento da falecida mulher. Aquilo lhe trouxe paz para tentar o impossível, a saída menos violenta, o caminho sem punhos. Numa voz forte e rouca respondeu:

-“Eu não faço milagres, rei de algodão”! O apelido ultrajou o semideus, que empacou:

-“Deixo isso pra quem tem cacife. Mas deixa eu te falar meu último desejo.” e dito isso, puxou para perto da boca um pequeno toco de vela negra, acesa, mas quase no fim.

​Andaluizio não registrou o que era até ser tarde. Mesmo que visse antes, não teria medo. Se julgava invencível. Mas nenhum homem o é.

-“Eu queria que ninguém nunca tivesse lembrado nenhuma vez da porra do seu aniversário” e soprou a vela. E o mundo deixou de existir por um momento.

“…béns a voceeeê” O coro de amigos terminou de cantar e todos aplaudiram. Robeaux sentiu um beijo profundo em sua bochecha barbuda e dezenas de mãos dando-lhe tapas amistosos nos ombros. Estava boquiaberto e com os olhos assustados. De repente a risada dos amigos começou a morrer. Estavam todos olhando para ele com uma expressão preocupada. Ergueu o braço que a poucos segundos estava amputado e tocou o lado da face que antes era só uma mancha carbonizada.

-“Está tudo bem, meu preto?” Ouviu a voz familiar ao seu lado. Virou-se para encontrar Helga, sua doce Helga, em pé num caixote a fim de suplantar a falta de altura característica da raça anã ao seu lado com os cabelos ruivos presos numa trança.

-“Você parece assustado. Viu um fan…” mas antes de ouvir a frase cliché, Robeaux a abraçou com força e a beijou profundamente na frente de todos. Constrangido e animado, um “uuuuh” soou entre os companheiros.

-“Nossa! Que foi isso?” disse, mas o rosto branco de repente havia ficado numa tonalidade escarlate.

-“Eu te amo. Te amo muito.” E a beijou mais uma vez sem explicar nada.

  • Nossa, vocês arrumem logo um quarto – riu o seu irmão no meio da multidão, trazendo algumas canecas de cerveja cheias. Estava puxando algumas tiradas mas Robeaux largou a esposa e abraçou o irmão com a força de um urso. O momento estava ficando constrangedor rá
  • .. Irmão? Você está bêbado?

- Não! Não, eu não estou, eu só… – berrou Robeaux com os olhos marejados. Mas antes de continuar, viu Malquíades mais afastado, apoiado na parede da caverna. Se desvencilhou do irmão e foi até ele. Todos ficaram tensos. A dupla brigava constantemente e por pouca coisa, e Robeaux tinha o costume de irritar muito Malq quando estava bêbado. Todos se entreolharam, inclusive Malq ao longe. Mas para surpresa geral, Robeaux apertou a mão do companheiro e lhe deu um abraço fraterno. – Você é um grande amigo Malq. Um grande, grande amigo. Obrigado.

Malq não entendeu, muito menos qualquer outro membro do grupo, mas agradeceu satisfeitíssimo por dentro. A festa não parou por isso. Logo estavam todos bebendo e comendo. Algumas horas mais tarde Robeaux estava na varanda da estalagem favorita do grupo olhando o céu. Uma lua cheia muito bonita recompensava seus olhos.

- Rob? – era Helga. Diferente de seu eu habitual, parecia quase tímida. Ela estava nervosa pela atitude mudada do companheiro, embora não a achasse de todo ruim – está tudo bem?

- Está sim – Robeaux mostrou um sorriso caloroso – está tudo bem agora

- Você está meio diferente… Algo aconteceu?

- Se algo aconteceu? – repetiu Robeaux. Olhou para Helga como se estivesse para contar algo, mas de repente seu olhar parecia atribulado – … na verdade, acho que sim… mas… eu não me lembro – respondeu encabulado – acho que estou bêbado mesmo, hah!

Helga assentiu. Decidiu deixar o assunto para lá. Se fosse importante, Rob lhe diria.

- “Mas, tenho que te pedir desculpas. Fizemos a festa por que não tivemos condições de arrumar nenhum presente melhor, esta é a verdade” disse ela com uma sinceridade divertida e tocante. Robeaux não se incomodou um segundo por isso.

-“Hah hah! Deixe de falar bobagens fogueirinha” disse com um sorriso, abraçando a amada. “Eu tenho aqui o melhor presente que poderia ter no mundo: Vocês.”

Em outro lugar, numa sala vazia e incólume, um Rei Andaluizio amargava suas derrotas políticas. O reino passava por um descontentamento crescente e o medo de uma guerra iminente. Muitos falavam em voz baixa sobre a destituição da coroa. Mas nada disso se comparava a agonia que sentia agora.

Estava naquela época do ano. Onde a mente embranquecia facilmente, onde certas lembranças sumiam. E sempre tinha uma noite no mês que era pior que todas. Sempre com a lua cheia no céu.

Um dia em que parecia estar esquecendo alguma coisa importante.

Olá amigos.

Espero que tenham gostado dessa que é a primeira de muitas histórias curiosas e absurdas onde o fantástico, o místico e o irreal se misturam com… comida!

Bem vindos ao The Fantastic Flavour Chronicles. Eu sou seu anfitrião, o sr. Estranho (Vulgo Paulo Teixeira, escritor, colunista, podcaster e chef du coisine enquanto não me ocupo criando piadinhas cretinas). E aqui trarei contos fantásticos onde o seu tema principal sempre terá algo a ver com comida. Como esta, que fala sobre Bolos de Aniversários.

Ao contrário do que pode ser imaginado, o costume de festejar o dia do nascimento não é um costume unicamente cristão, e existia muito tempo antes de cristo – inclusive o costume era proibido na igreja cristã até o século IV, quando começou a se comemorar o nascimento de Jesus – com suas origens remontando a Roma antiga e até a Grécia. E, pasmem vocês, o bolo de aniversário é mais antigo mesmo que a comemoração propriamente dita: Era costume fazer uma oferenda todos os anos em homenagem a Deusa da Caça Artêmis – também a matrona das parteiras – com um bolo de mel redondo e várias velas para simbolizar a lua cheia, símbolo máximo da deusa.

A evolução da festa – e do bolo em conjunto – se deu durante vários séculos. Os presentes, por exemplo, são herança direta dos costumes da Roma antiga, onde se acreditavam que as oferendas postas ao redor do aniversariante o protegia de maus espíritos, evoluindo após inúmeras influencias cristãs e de diversos povos no costume atual de presentear quem chega ao Dia de Seu Nome.

A festa, antes um luxo apenas para as classes dominantes (existiram menções de festas para exultar o nascimento de faraós e reis, mas era difícil isso ocorrer em classes mais baixas) se tornou um costume popular apenas no século XIX no ocidente quando na Alemanha festas comunitárias começaram a ser feitas para comemorar os nascimentos na comunidade. Hoje, no entanto todo mundo tem direito a sua festa, ao seu bolo e ao seu desejo.

E neste clima de comemoração, convido todos a fazer parte desta grande festa que são os 4 anos do Sphera Geek e desejar mais muita coisa boa tanto pra gente que produz do lado daqui quanto pra você, que consome do lado daí!

Então é isso galera. Espero que tenham curtido, e parafraseando o poeta FICA, QUE TEM BOLO!

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