Sphera Literária #41 – Crônica: O Livro e a Pá

clelia

 

Nossa convidada de hoje, a Professora Clélia Gimenes,  nos brinda com uma de suas crônicas.

A crônica é um gênero textual que fala de maneira generalizada sobre os acontecimentos do dia a dia. A modernidade trouxe a crônica argumentativa, na qual o objetivo maior do cronista é relatar um ponto de vista diferente do que a maioria consegue enxergar. Ele, usufruindo-se do bom humor mesclado a toque sutil de ironia, aposta no intento de fazer com que as pessoas vejam por outra “face” aquilo que parece óbvio demais para ser observado.

(Fonte: http://brasilescola.uol.com.br/redacao/a-cronica-argumentativa.htm)

A maioria dos adolescentes pensa que o tempo é infinito. Deixam tudo para depois, isso inclui os estudos. Acreditam piamente que vão conseguir dar conta de todas suas obrigações, sem pressa e sem pressão. Não adianta os pais falarem, professores, orientadores, acham-se Super Heróis.

As escolas privadas dividem-se entre jovens extremamente focados nos estudos e outros que não se empenham devidamente para tirarem boas notas. As famílias, às vezes perdidas, já não sabem como agir, culpa da modernidade ou da infância estendida? Entretanto, colégios estaduais têm muitos deles querendo uma oportunidade e quase nunca conseguem. Uma bolsa de estudos já ajudaria, mas a fala preconceituosa e errônea de muitos é: “ Eles não conseguem passar nos concursos de bolsas! ”

Rapazes e moças com melhor poder aquisitivo estão muito mais preocupados com a aparência que com o intelecto. Exibem seus corpos “sarados” e “ malhados” em academia como troféus. E o que ingerem em sala de aula? Desde chás emagrecedores e detox a marmitas de carboidratos. O que mais admira é que eles realmente acreditam que tudo isso irá funcionar. É a moda do corpo perfeito, da beleza estereotipada e antiquada que velozmente ganha espaço nesse meio. Haja vista muitos casos de transtorno alimentar entre esses jovens por não atingirem o tão sonhado padrão mentiroso de beleza. Terminam o ensino médio e partem para as Universidades, que na maioria das vezes também é particular. Os pais continuam a investir. A esperança é que se tornem bons profissionais, quem sabe no futuro encontrem a verdadeira vocação e que sejam felizes em suas escolhas.

Um dia desses, meu carro teve uma pane no estacionamento de uma grande loja. Enquanto aguardava a chegada do mecânico do seguro, observei dois rapazes que trabalhavam como pedreiros, arrumando uma parte da calçada sob o sol escaldante. O calor era insuportável de 35°, com sensação térmica de 40°. O rapaz mais velho aparentava 25 anos, tinha um porte altivo, corpo bem feito e músculos retesados. A cabeça estava protegida por uma camisa contra o sol.

Fiquei a observá-los. Um caminhão de terra derramava areia sobre o retângulo a ser consertado.Com pás os rapazes puxavam a montanha de areia avidamente.

O mais jovem deles deveria ter uns 19 anos. Moço bonito, corpo rijo. Usava brincos de zircônia e fones de ouvido. Trabalhava sem descanso, o suor escorria pelo rosto e braços e pingava sobre a areia que teimava em não se espalhar.

Analisei a situação dos dois rapazes. O trabalho que faziam era muito nobre, mas exaustivo. Imaginei, pela experiência de 15 anos trabalhando com adolescentes, que no caminho dos estudos, fizeram escolhas. Talvez quisessem ser pedreiros. Não acreditei. Meu pai e irmão trabalharam com isso e não é a primeira alternativa de ninguém. A mão de obra é difícil e mesmo quem opta pela construção civil, como o engenheiro, nunca põe verdadeiramente a mão na massa. Deduzi que não estudaram ou se empenharam enquanto podiam. Talvez não tiveram grandes oportunidades, não foram incentivados. Ou quem sabe, percebendo a dificuldade do ofício em que estavam, retomaram seus estudos, ainda que cansados da labuta diária. Torço para isso. Tive vontade de perguntar, não o fiz.

Eis o paradoxo na vida dos adolescentes. Aquele jovem rapaz de brincos e fones, se misturaria sem nenhuma dificuldade entre os da escola privada. Poderia exibir seus músculos aos amigos, ouvir músicas durante as aulas e os livros seriam muito mais leves que a pá, pois essa faz calos nas mãos, tornando-as grossas pelo esforço do trabalho, enquanto que aqueles são leves para manusear, trazem conhecimento e consequentemente, boas oportunidades. E os que as têm e não aproveitam?

Nunca se encaixariam nessa profissão e dificilmente trabalhariam sob o sol escaldante. Podem chamar de preconceito, porém, se não conseguem levantar os livros e folheá-los, imagine, dezenas de vezes, as pás pesadas de areia.

 

Clélia Gimenes
Formada em Letras – FREA – Avaré (ESP)
Professora da rede pública e privada de ensino
Ministra aulas de Literatura e Língua Portuguesa