Sphera Literária #43 : Transformações – Simone Andreazzi

Olá amigos do Sphera!

Nossa convidada, a escritora Simone Andreazzi, nos brinda com um lindo texto, uma homenagem sensível que nos leva  a várias reflexões.

images                                                                  Transformações – mudanças de ciclos

Escrever para mim sempre foi uma forma de terapia e de desabafo para me sentir melhor. Um momento de equilíbrio e leveza do ser. E nestas linhas coloco o que penso. E me sinto melhor.
Ciclos se abrem e se fecham constantemente na vida das pessoas e tenho vivenciado muitos em minha vida.

Estou neste momento, no quarto do hospital acompanhando meu pai que está hospitalizado com um diagnóstico de pneumonia e desnutrição. E olhando para ele, questiono quantos ciclos ele já vivenciou nestes quase 86 anos de vida.

Papai sempre foi um bom filho. E histórias de pessoas para pessoas, fotos e a própria construção da vida, mostrou o homem maravilhoso que ele é.
Um homem que nasceu numa família conceituada. Sangue português correndo nas veias. Seu pai- meu avô, um homem íntegro e sua mãe, minha avó, uma portuguesa elegante e forte. Minha mãe contava que ela era uma bordadeira de “mão cheia”. Bordava camisolas para uma boutique de Campinas. Uma mulher exigente e de grande coração, que não gostava de expor suas emoções. Minha avó faleceu muito jovem. Pouco mais de 50 anos. Foi num domingo, na casa de meus pais. Ela passou mal e veio a falecer na cama da minha irmã Vanda, que se parece demais com minha avó. Meu avô passou a morar com meus pais e foi um homem muito generoso. Muito bom para com todos nós.

Meu pai, nestes 62 anos de casado com minha mãe, sempre foi um homem de iniciativa, de pouca fala e muito amoroso.

Construiu sua casa com muito esforço e trabalho, além da dedicação, empenho e luta. Nunca deixou faltar nada em nossa casa. Estava sempre presente, mesmo que seu horário noturno de trabalho o fizesse dormir durante o dia.

Meu pai, meu doce pai estava sempre conosco em todos os momentos e etapas da nossa vida. E confiava a minha mãe a nossa educação rígida. Mami, uma mulher de fibra, exigente nas nossas vidas. E agradeço todos os dias essa exigência, que fez que suas quatro filhas se tornassem as mulheres fortes e determinadas que são hoje.

Meu pai se formou no Senai e se tornou um exemplar metalúrgico. Trabalhou com eficiência e eficácia com peças grandiosas, pó preto e máquinas gigantes. Fez muitos cálculos e encaminhou diretrizes para o comando de uma empresa. Liderava homens braçais para funcionar monstruosas máquinas e questionava engenheiros, com seus cálculos rabiscados no papel, os quais eram certeiros e os resultados batiam com precisão com calculadoras científicas da época.

A vida fez meu pai se aperfeiçoar na sua profissão e se tornar um grande chefe na indústria pneumática. O qual hoje falamos “gestor” administrativo.
Nestes tempos de luta, meu pai construiu sua casa, criou suas filhas, proporcionou momentos de felicidade para sua família. E sempre teve o respeito e o amor de todos à sua volta. Meu pai nos levou a praia. Nos fez conhecer o mar, as montanhas, as pequenas e lindas cidades do interior e apresentou junto com minha mãe o prazer dos almoços em família, onde seu lugar a à mesa nunca foi mudado até nestes dias atuais, exceto que sua cadeira, foi substituída pela cadeira de rodas.

No decorrer de sua vida, comprou uma linda chácara, que divertiu muito nossa família, mas para ele trouxe muito trabalho e alguns desgostos, entre eles, os roubos e assaltos. Alias os únicos desgostos que o levou a desfazer do tão belo paraíso.

Meu pai, meu doce pai nos acompanhou em muita coisa linda neste quase 86 anos de vida. Casamento das filhas, nascimentos dos netos, crescimento profissional da família entre conquistas e lutas. Também viu muitos de seus amigos se despedirem da vida e enterrou seus pais e seu querido irmão, meu tio.

Minha mãe sempre esteve presente na sua vida. Companheira fiel, de força mútua em todos os momentos. Meu pai era autoritário. Ditava as regras e exigia respeito aos “não” que entoava na sua voz grave. Homem ciumento, que cuidava se sua mulher e fazia tudo por ela e para ela.

Aposentou-se e não quis parar de trabalhar. Montou sua empresa e passou a ser chefe direto de seus funcionários. Sempre colocava as “mãos na massa”. Tudo era solucionado. Ninguém ganhava de papai. Teimoso? Muito. Amoroso? Demais!

Dois infartos do miocárdio quase levaram meu pai para outra dimensão. Mas não conseguiram. Homem forte, guerreiro da vida!
No entanto, de mansinho, chegou o Parkinson. Trouxe tremores, trouxe remédios fortes que não o desanimou frente a sua luta diária.

Os ciclos se abrem e se fecham. O Parkinson avançou no decorrer dos anos que contam com pelo menos 20 anos. E devido aos tremores e o avanço da doença, meu pai teve que usar a bengala. Tempos de bengala que trouxe o uso do andador, que teve seu tempo que apresentou ao meu doce pai, a cadeira de rodas- as suas novas pernas.

Com a cadeira, descobrimos outros lugares para passear. Passamos, nós família, a sermos as pernas de nosso pai, onde direcionávamos seus passos.
Esse homem de pouca conversa, passou a não falar mais. Seu olhar passou a ser mais incisivo, porém repleto de gratidão e confiança para todos ao seu redor.
Minha mãe, sua companheira, passou a cuidar de seu esposo, como um filho. O marido ciumento e totalmente centralizador teve que ceder aos seus cuidados de forma diferente. Troca e mais troca de fraldas, comidinha quentinha na boca. Sempre limpinho. Sempre junto um do outro.

Como filha, aprendi com meu pai a ser proativa. Aprendi a fazer barba, a dar banho e sempre arranco um sorriso deste rosto agradecido pelas dádivas da vida.

Nestes últimos dias, um novo ciclo se fechou e outro se abriu.
Meu pai deixou de comer, de se alimentar como fazemos no dia a dia. Ficou fraquinho e uma pneumonia chegou para avisar.
E neste quarto de hospital, olhando para ele, vejo que sua volta para casa trará um novo momento para sua vida e de todos os envolvidos.

A cadeira de rodas, sua companheira de trajeto, será deixada perto dos seus sapatos, do andador, da bengala e sua cama. E novos acessórios farão parte de sua vida.
Uma cama hospitalar será seu leito e sua alimentação será por sonda. Uma dieta equilibrada.
Os almoços quentinhos de minha mãe serão substituídos por algo que melhor vai atender suas necessidades.

E assim são os ciclos da vida. E vamos viver todos, um de cada vez, com a força que somente Deus é capaz de dar.
Olhando novamente para meu pai nesta cama de hospital, só peço a Deus muita força para minha mãe e para todos nós. E muita coragem para meu pai.

Eu quero agradecer a Deus pelo pai maravilhoso que Ele escolheu para mim.
E como filha, serei grata por todo o sempre.

(Meu pai está na casa dele, sob os cuidados de minha mãe e da família encantadora que ele possui).

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Simone Teixeira Andreazzi
Pedagoga/Psicopedagoga
Autora de livros infanto juvenil, prosas e poesias