Sphera Literária #59: Retrato – Cecília Meireles

Retratando a efemeridade..

Retrato – Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,

assim calmo, assim triste, assim magro

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.

Eu não por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil:

-Em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles pertence a 2ª fase do Modernismo ,chamada geração de 30. Algumas de suas poesias são consideradas neossimbolistas pela musicalidade, descritivismo e imagens sensoriais.

RETRATO mostra a efemeridade e a ânsia em atingir um mundo atemporal e imaterial. Descreve as mudanças que acontecem ao longo da vida, tanto física como psicológica. O “eu lírico” mostra-se inconformado com tudo isso, principalmente com o fato de não ter percebido a passagem do tempo e o momento em que perdeu-se de si.

A poesia é do século XX, porém universal, enquadra-se particularmente nos dias de hoje, onde a busca pela perfeição estética,
profissional e financeira toma conta da vida das pessoas, o stress vira rotina e consequentemente se esquece de aproveitar os momentos realmente importantes.

A longevidade trouxe mudanças na sociedade deste século. A indústria de cosméticos nunca vendeu tanto e não importa mais o gênero, muitos homens também querem manter ou melhorar a aparência por mais tempo. O problema é que como em um dos versos da poesia: “ Em que espelho ficou perdida a minha face?”, as pessoas ainda vivem angustiadas por sofrerem as consequências inevitáveis da maturidade. Cada vez mais deprimidas com sua aparência pela busca da eterna juventude.

Cecília Meireles fala de uma mulher dos anos 30/ 40, veja que desde sempre o ser humano sofre com a efemeridade. Então, não importa o século, a idade, a transitoriedade da vida, a fugacidade dos objetos ou as mudanças físicas inevitáveis…o lirismo que há em cada ser é o que realmente importa!

Transforme-se: de um rosto triste em sorrisos sem motivo; de olhos vazios na certeza de dias melhores e os lábios amargos em beijos de amor! O ideal é trocar a melancolia pela temática dos Arcadistas: “ Carpe Diem, amigos”!

Clélia Gimenes

clelia

Formada em Letras pela Faculdade de Ciências e Letras de Avaré – SP
Leciona, apaixonada, há 17 anos, Língua Portuguesa e Literatura.
Autora de contos, esses publicados em antologias pela editora In House
Natural de Cerqueira César- SP, atualmente reside em Campinas – SP