Sphera Literária #60 – Escritores Brasileiros: Fascinação

Ela o amou. Ele, só paixão. Após 20 anos, um reencontro e uma das conversas que tiveram por telefone:
Ele: “Defina em uma palavra o que sente por mim.”
Ela: “Em uma palavra? Não conseguiria! Vou tentar explicar… Sabe quando a gente está de férias na praia e acorda
cedinho para caminhar, depois senta na areia e fica olhando a imensidão do mar azul? Apertamos um pouco os olhos, pois esquecemos dos óculos escuros. A gente se deita, apoiando o corpo nos cotovelos, fecha os olhos e respira. O cheiro do mar, o calor do sol que vem de mansinho nos tocar, beijar de leve nossa pele. A brisa leve carrega consigo todos nossos sonhos e deixa a possibilidade de que eles irão se realizar e a liberdade de poder fazer o que quiser… É isso o que sinto por você.”

Ele: “É uma poeta!”
Ela: “Minha inspiração sempre foi você!”
Ele: “Não fale assim, por favor! Não faça isso comigo!”
Ela: “Não consigo achar somente uma palavra, não posso…”
Ele: “Se você não consegue, ninguém mais o fará!”
Ela: “Vejo você em tudo…na luz das estrelas, no pôr do sol, no voar dos pássaros, na brisa leve da madrugada, no
sorriso de uma criança, nas músicas e principalmente na imensidão do céu azul…”
Ele: “Por favor, não diga isso…eu…”
Ela: “Meu sentimento por você é transcendental, inexplicável. Eu tentei… Juro que fiz de tudo para esquecê-lo, mas não consegui. Faz tanto tempo e ainda sofro com o desejo de vê-lo e estar ao seu lado. Sinto-me culpada por isso!”
Ele: “Vivemos apenas uma vez, não se culpe. Reacendeu o sentimento…um desejo… temos uma forte ligação…é como se algo não tivesse sido resolvido entre nós…”
Ela: “Que loucura!”
Ele: “Vou lhe dizer algo engraçado, mas lembro-me da textura de sua pele, sua boca, seu sorriso… você sente algo
Ela: “Sim… de seu cheiro amadeirado, o toque de suas mãos em meu rosto, o gosto de sua boca…o som da sua voz…”
Ele: “O que é significa tudo isso?”
Ela: “Não sei, mas gostaria de vê-lo…Preciso… mas, não devemos… É melhor não arriscarmos…”
Ele: “Sim, devemos. Preciso sentir seu calor, ainda que seja em um pequeno abraço, olhar dentro dos seus olhos e
entender essa coisa doida que ainda sinto por você…”
Ela: “Entendo…”
(…)
Ele: “Ainda está aí?”
Ela: “Sim…”
Ele: “O que você realmente deseja?”
Ela: “Ter vivido um grande amor. Aqueles arrebatadores que fazem você sair do chão, rir de todas as coisas, ver tudo colorido. Sentir arrepios na pele só com a ideia de que chegará perto da pessoa amada…Colar o nariz na janela em busca de uma estrela cadente…fazer pedidos e acreditar neles… mas Deus, não! Nosso tempo já passou…”

Ele: “Você é feliz?”
Ela: “Tento. A felicidade é como uma lagarta…passa a vida toda querendo ser borboleta e quando realmente consegue, alça voo e esquece do que realmente lhe importava. É somente um sonho realizado…depois tudo acaba e vem outro e outro… passamos a vida toda tentando ser borboleta e esquecemos de aproveitar a vida de lagarta…”
Ele: “Não consegue responder de outra forma?”
Ela: “Não. Desculpe-me. Nestes anos vim fechando as caixas que ficaram abertas, resolvendo meus medos, minhas dores, decepções e ex-amores…”

Ele: “E eu sou uma dessas caixas que você quer fechar…
Ela: “Tentei fazer isso muitas vezes, acredite! Mas nunca consegui… você é uma tatuagem e como essa é permanente, eu nunca conseguirei tirar…porém é necessário fazer algo …”
Ele: “Não! Não o faça!”
Ela: “Por que não? Afinal, isso não seria o certo? Meu coração está aos saltos, ele clama pela seu. Isso é loucura! Não podemos! Não! O que você quer de mim?”
Ele: “O que eu quero de você? Essa pergunta é minha! Então…O que você quer de mim, minha querida? E o que não está certo? Não estamos fazendo nada que seja errado! Somente conversamos e percebemos que ainda não nos esquecemos…Pare com isso! Na verdade, eu também não consigo entender o que quero…”

Ela: “É tempo de dizer adeus. Tivemos a nossa história,não deu certo, então construímos uma nova, a que estamos
vivendo agora. Somos comprometidos com outras pessoas que não têm culpa dessa loucura que sentimos um pelo outro,”
Ele: “O que vai fazer, então? Vai fechar a caixa?”
Ela: “Vou fechar sua caixa, o difícil será tapar os buracos que teimam em ficar nela… Adeus!”

Em uma semana ele recebeu uma mensagem de texto.

Ela: “Encontrei a palavra para o que sinto por você: fascinação.
Ele: “Sinto-me lisonjeado!”

O tempo passou, as conversas continuaram por mensagens de textos, riram muito e também se chatearam. Ele neutro e sempre metafórico, ela aberta às emoções que infelizmente saíram de seu controle. Uma decisão. Um fim.
Três meses e um e-mail é recebido por ele…

“O que você quer de mim?”

Durante um tempo fiquei pensando se deveria começar esse texto pelo início ou pelo fim. Decidi pelo fim. Pensei, refleti, retomei algumas falas e reavaliei nosso reencontro. Minha decisão em escrever foi uma reação às nossas conversas, a última em especial, que além de longa, foi-me bastante esclarecedora. Entendi, então, ainda em tempo, que minha loucura ultrapassou todos os limites que um dia me foram impostos e que, nem nos meus mais loucos sonhos, imaginei acontecer. Sou de longe uma pessoa romântica, outrora, o romantismo foi-me tomado muito cedo e a realidade sempre foi meu forte. O que aconteceu e acontece é que tenho uma imaginação fértil e consequentemente viajava nela para fugir das situações que não conseguia lidar ou enfrentar. Em meus delírios confundi realidade com ficção, lucidez com loucura e para piorar a situação, coloquei você dentro deste circo de horrores.

O que é realidade? Nunca lhe esqueci, não pelo amor que senti, mas pelo que você simboliza para mim. Minha libertação! Sim. Liberdade esta que fez-me quem sou, ou melhor, sair de uma vida amarrada entre um ser abusador e um namorado infiel e drogado. Um namorado? Era quase um noivo. Foram sete anos de namoro, quase casamos se não fosse ter-lhe conhecido. O motivo? Descrito em detalhes no texto que mandei-lhe há meses por e-mail … Isso não é algo que se esquece facilmente, então, tento justificar minha fascinação e a dificuldade em esquecê-lo nestes vinte e poucos anos.

Após uma avalanche de problemas, ali estava você, firme, forte e aventureiro. Nunca foi minha intenção ser tão dedicada, mas foi acontecendo. Piorou depois do que lhe escrevi. Aquilo foi um desabafo, uma forma de acabar uma vez por todas com o sofrimento que sempre tive e que nunca compartilhei com ninguém. Você fez-me uma pergunta diversas vezes: “O que você quer de mim?”
Responderei-lhe no passado e no futuro.

Eu queria que soubesse:

a) que fui assediada horrorosamente por aquele seu conhecido sem direito à defesa;
b) que acreditei todo esse tempo, que você não quis nada comigo, por achar que eu me envolvia com aquele ser desprezível;
c) que sofri em não poder ficar com você e me sentia inferior em relação à sua pessoa;
d) e que eu consegui superar tudo isso e sim, decidi ser feliz.

O que eu quero de você:

a) a amizade de quem recorda de bons momentos e a possibilidade de podermos nos encontrar sem criar cons-
trangimentos e desconfortos para nenhum dos dois;
b) conversar sem a preocupação de possíveis mágoas e que você seja muito feliz com suas escolhas e eu com as
c) e do fundo do meu ser, que me perdoe por envolvê-lo em meu delírio egoísta e inconsequente.

Sempre desprezei qualquer tipo de traição ou mentira. Meus desejos tornaram-me um paradoxo. Sofro por sentir-me assim.
Pego, então, o que resta de minha dignidade para tentar voltar ao meu centro. Reestruturar-me.
Um dia, quem sabe, vamos rir muito disso tudo.
Até este momento.
M.V.Q.A

E ficou assim, sem solução, sem fechar nada por mais uma vez. A sensatez decidiu pelos dois ou foi o acaso? Ou a geografia como ele sempre dizia? Tanto fez, contudo suas almas estavam ainda mais conectadas e jamais seriam separadas, pois eles tinham plena consciência de que qualquer que fosse os sentimentos arrebatadores que sentiram, nunca poderiam ficar juntos.

 

Você poderá encontrar este texto no livro Escritores Brasileiros lançado neste último dia 14 de Maio pela Editora InHouse.

 

 

cleliaCLÉLIA GIMENES

Formada em Letras pela Faculdade de Ciências e Letras de Avaré – SP. Leciona, apaixonada, há 17 anos, Língua Portuguesa e Literatura. Natural de Cerqueira César – SP, atualmente reside em Campinas – SP

E-mail: clelia.leitura@gmail.com