Sphera Literária Especial “Dia dos Namorados” : Amor platônico ou fonte de inspiração? – Clélia Gimenes

Platão, um dos filósofos gregos mais importantes da antiguidade, e seus seguidores tinham a ideia de que o amor real é aquele que se sente pelo conhecimento, ou seja, conhecer profundamente a outra pessoa. Essa crença foi se
modificando ao longo dos tempos e hoje o platonismo ficou conhecido como algo impossível de concretizar ou materializar, por isso permanece como aquilo que nunca poderá ser alcançado.
É a ilusão e a imaginação que sustentam esse sentimento, se, de alguma forma vier a concretizar, deixará de ser considerado.

Quem nunca sentiu um amor assim que atire a primeira pedra! Desde sempre se está sujeito a esse sentimento. Os pais são os primeiros com o complexo de Édipo ou Electra, depois os tios, babás, primos, professores, colegas da escola…etc
Talvez esse seja o amor real tão defendido pelos filósofos; puro, angélico, amar por amar, amar por conhecimento.

A Literatura traz vários exemplos de platonismo, muitos autores cantaram o amor com ou sem musas inspiradoras e fizeram isso com tanta veracidade que chegam a convencer que realmente sentiram a paixão retratada.
Camões, no Classicismo, retomou a ideia de Platão quando diz em seus versos:

“ Transforma-se o amor na cousa amada
Por virtude do muito imaginar
Não tenho, logo, mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada …”

Consegue imaginar um amor assim? Tão intenso e grandioso que é capaz de transformar-se no ser amado para compreendê-lo? Um amor abnegado, sem pedir nada em troca.
Tomás Antonio Gonzaga teve uma musa inspiradora e seus momentos eram repletos de Carpe Diem, a Marília de Dirceu, um ser idealizado, perfeito, sobrenatural:

“ Graças, Marília bela,
Graças a minha Estrela
Os seus olhos espalham luz divina”…

Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa também tinha sua musa, era Lídia, e retratando a efemeridade :

“ Vem sentar-se comigo Lídia, à beirada do rio
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas”…

Quem não pode ficar de fora é Vinícius de Moraes, um amante nato, da vida e das mulheres. Um apaixonado pela poesia e pelo lirismo cotidiano; retratou pouco o amor platônico, porém mostrou muito de onde vinha sua inspiração:

“De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento” (…)

O amor inatingível, a imaginação e a idealização do ser amado são ideias que movem o mundo do lirismo. Tudo isso é necessário e indispensável nos corações dos poetas que retratam o tema com tanta propriedade. E os corações apaixonados ao lerem esses versos, terão a certeza de que não estão sozinhos neste mundo fascinante, onde tudo pode ser fonte de inspiração, amores possíveis e até mesmo os impossíveis!
E como disse Fernando Pessoa:

“ Sentir? Sinta quem lê!”

 

CLÉLIA GIMENES
Formada em Letras pela Faculdade de Ciências e Letras de Avaré – SP. Leciona, apaixonada, há 17 anos, Língua cleliaPortuguesa e Literatura. Natural de Cerqueira César – SP, atualmente reside em Campinas – SP

E-mail: clelia.leitura@gmail.com

 

3 thoughts on “Sphera Literária Especial “Dia dos Namorados” : Amor platônico ou fonte de inspiração? – Clélia Gimenes

  1. Mais uma vez estou a ler mais um dos seus escritos, Clélia e digo a você que mais uma vez me sinto extasiada com o produto de seu trabalho! Parabéns, minha amiga!

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