SpheraBook #23 – Contos Edgar A. Poe e Autoral

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Boa noite a todos os companheiros do Sphera,

Cá estou novamente para compartilhar com vocês um novo conto da semana! É … Este primeiro é de um grande escritor inglês, romancista gótico e “pai” dos romances policiais, Edgar Allan Poe.

O meu terceiro conto, Anjo da Rezadeira, este espero que gostem e que a moral deste seja bem impactante.

Por Edgar A. Poe

Não fui, na infância, como os outros

e nunca vi como outros viam.

Minhas paixões eu não podia

tirar de fonte igual à deles;

e era outra a origem da tristeza,

e era outro o canto, que acordava

o coração para a alegria.

Tudo o que amei, amei sozinho.

Assim, na minha infância, na alba

da tormentosa vida, ergueu-se,

no bem, no mal, de cada abismo,

a encadear-me, o meu mistério.

Veio dos rios, veio da fonte,

da rubra escarpa da montanha,

do sol, que todo me envolvia

em outonais clarões dourados;

e dos relâmpagos vermelhos

que o céu inteiro incendiavam;

e do trovão, da tempestade,

daquela nuvem que se alterava,

só, no amplo azul do céu puríssimo,

como um demônio, ante meus olhos.

Por Douglas Cavalcante

Entro no busão, mais uma semana termina. Sento na janela e fico olhando a estrada correr. Pode até parecer loucura, mas mesmo estando de fone ouvindo algo nas músicas do celular ainda quero alguém para sentar ali do lado, puxar um assunto, conversar um pouco … Parece estranho, mas preciso disto.

Ônibus vazio, sento  na parte do meio, jogo minha mochila ao lado e, como a mente vazia é oficina do diabo, com diz minha mãe, nós seguimos logo uma sina. Passamos pela vida tão depressa que nem notamos o que realmente interessa, e assim tudo se vai, o teu castelo cai e mais um anjo vai lá pra morada eterna. Pode parecer loucura querer abraçar quem já morreu, mas só quem perdeu sabe a falta que faz uma companhia, pode ser qualquer pessoa, seu pai, sua mãe, sua tia … Alguém que sempre via o que você fazia torcendo pelo seu bem, porém, recusamos muitas vezes o que  nos é desejado. Nesse cotidiano bagunçado, lá estou eu sentado num banco de um ônibus vazio pensando que em algum lugar para relaxar, eu vou pedir pros anjos cantarem por mim.

Olha só que absurdo, talvez algo bem ligeiro, uma lágrima de lembrança escorre no meu rosto sem medo. Pois é, há momentos perfeitos. Só você notar para ver que temos o que realmente ver e que muitos são passageiros. É tudo bem assim, e não sei por quanto tempo.

Talvez hoje você esteja aqui, sentado do meu lado, sobre minha mochila, no banco vazio. Ou até mesmo na minha frente, mas você sabe que não gosto de ser liderado. E atrás? Também não, não gosto de liderar. Ande mesmo ao meu lado para que assim possamos seguir juntos e unidos.

Novas páginas o jornal imprime, o que me deprime é esse poder de transformar vidas em estatísticas. Outra sexta-feira, outra experiência. Vi uma cena que para você foi uma sentença, uma mulher corre para o meio da multidão, cai de joelhos e logo abraça um corpo caído no chão. Parece até algo dramático, ver tudo isso aqui em cima, do seu lado. Mas olha lá, quem é mesmo? Você ! Vamos voltar a fita pra ver você pela manhã correndo com os moleques no campo soltando pipa, jogando bola, sujando o uniforme novo com a lama do campo. Até ai, tudo bem. Nada mal. Mas o caminho que vivemos, você viu cedo seu final. Mas que ciclo hein? Nem carta deixou aos parentes, mas você recebeu uma daquele remetente. Você mesmo e falou que sonhou com um anjo, que falou pra você que isso não era um sonho.

Cada um escolhe o caminho a ser trilhado, mas para Ele esse é imundície. Você gostava tanto do Super-Homem que pensou que ele existisse, e que era você. Sonho ingênuo de criança esse que você teve.

O tempo passa, o busão para, uma senhora sobe. Ela ri do fato de andar devagar e logo se senta no banco da frente. Fuça sua bolsa e pega umas moedas e passa pela catraca, com um sorriso extenso no rosto. Então, ela vai para o fundo e senta lá mesmo, abraça sua bolsa e também fica olhando para um chaveirinho falando com ele. E sabe o que parece? Aquela senhora que estava abraçando seu corpo naquela última sexta-feira que te vi. A rezadeira que pedia pra você cortar o caminho para o nosso lado, e que você sempre se rebelou e muitas vezes brigava, xingava, só não batia porque a maior dor dela foi a de te colocar no mundo que se misturava com esta, angustiante, de ver o bicho homem que você virou. Mas ninguém mandou você correr, atrás de pipa, atrás de bola, com coisas na mochila que pego lá na escola, fazer o que queria e mandavam, e seu tempo aí que foi escasso. Foi lá e fez o que era para fazer, mas isso nem deu tempo de você viver. Quinze anos e estava la você já com seu primeiro filho, um moleque com um bebê no colo, esquisito.

Então de novo você corre, mas agora você sabe que tudo isso talvez fora em vão. Neste momento, a rezadeira sente um aperto forte no coração. Ela lembra dele e logo sai de casa correndo, pensando se seu filho está aí perto, vivendo. Mas sabemos que nada é constante, muitas vezes vivemos rápido em instantes. Com outro me falou: Dentro do bem, tem o mal, e do mal, o bem. É o que estou vendo no Ying e Yang.  Então você escolheu. E olha só agora.

Seu tempo passou, a rezadeira chorou com o corpo do seu filho nos braços. Única família, amor.

Agora me diz, quem foi que estava certa? Que te defendeu quando podia e você nem deu motivo decente à ela. Um motivo para sorrir, ou de falar “que orgulho de você”. E agora o que resta?

A rezadeira, rezar e a você, proteger.

Anjos existem. Vivem perto de nós, basta abrir os olhos. Eles não tem asas, apenas o poder de nos fazer felizes …