SpheraBook #31 – Contos: A Águia e o Pardal e Sonhos de Uma Guerreira

pardalaguia

A Águia e o Pardal

O sol anunciava o final de mais um dia e lá, entre as árvores, estava Andala, um pardal que não se cansava de observar Yan, a grande águia. Seu voo preciso, perfeito, enchia seus olhos de admiração. Sentia vontade de voar como a águia, mas não sabia como fazer. Sentia vontade em ser forte como a águia, mas não conseguia ser. Todavia, não cansava de segui-la por entre as árvores só para vislumbrar tamanha beleza.

Um dia, estava voando por entre a mata e observando o voo de Yan, quando, de repente, a águia sumiu de sua visão. Voou mais rápido para reencontrá-la, mas a águia havia desaparecido. Foi quando levou um enorme susto:

 Deparou, de repente, com a grande águia bem à sua frente.

Tentou conter seu voo, mas foi impossível, acabou batendo de frente com o belo pássaro. Caiu desnorteado no chão e quando voltou a si, pôde ver aquele pássaro imenso bem ao seu lado observando-o, sentiu um calafrio no peito, suas asas ficaram arrepiadas e pôs-se em posição de luta. A águia, em sua quietude, apenas olhava-o calma e mansamente. Com uma expressão séria, perguntou-lhe:

 – Por que está me vigiando, Andala?

 – Quero ser uma águia como você, Yan. Mas meu voo é baixo, pois minhas asas são curtas e vislumbro pouco por não conseguir ultrapassar meus limites.

 – E como se sente, amigo, sem poder desfrutar e usufruir tudo aquilo que está além do que pode alcançar com suas pequenas asas?

 – Sinto tristeza. Uma profunda tristeza. A vontade é muito grande de realizar este sonho.

 O pardal suspirou olhando para o chão e disse:

 – Todos os dias acordo muito cedo para ver você voar e caçar. Você é tão única e tão bela. Passo o dia observando.

 – E não voa? Fica o tempo inteiro a observar-me?

 – Sim. A grande verdade é que gostaria de voar como você, mas as suas alturas são demasiadas para mim e creio não ter forças para suportar os mesmos ventos que, com graça e experiência, você corta harmoniosamente.

 – Andala, você sabe que a natureza de cada um de nós é diferente, e isto não quer dizer que nunca poderá voar como uma águia. Seja firme em seu propósito e deixe que a águia que vive em você possa dar rumos diferentes aos seus instintos. Se abrir apenas uma fresta para que essa águia que está em você possa guiá-lo, ela lhe dará a possibilidade de vir a voar tão alto como eu. Acredite!

 E, assim, a águia preparou-se para levantar voo, mas voltou-se novamente ao pequeno pássaro que a ouvia atentamente e completou:

 – Andala, apenas mais uma coisa: Você não poderá voar como uma águia, se não treinar incansavelmente, todos os dias. O treino é o que dá conhecimento, fortalecimento e compreensão a você, possibilitando assim a realização de seus sonhos.

 Quantas vezes você se deparou com pessoas incríveis com um grande potencial, mas que ficam estagnadas apenas olhando e admirando outras pessoas, e existe ainda aquelas que pensam que não conseguem fazer várias atividades, mas nos momentos mais difíceis mostraram uma capacidade de superação gigantesca.

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“Mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo”. Mateus 24:13

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Sonhos de uma guerreira 

Inspirado na história Alice no país das maravilhas.

(Link para o PDF, caso não queira ler no Blog o Conto)

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Sonhei..

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Sim, sonhei que estava deitada sobre a grama verde e macia dos campos de Balder, ergui a cabeça e pude contemplar a beleza das colinas repletas de urzes e a mata fechada mais ao sul, as montanhas despontando no horizonte e o cheiro inesquecível das flores do campo e lembro que usava um vestido muito longo, vermelho com o peitoral de corselete e meus cabelos estavam soltos, perfumados, um momento que não desejo esquecer mesmo sabendo que não passava de um sonho, pois Balder não existe mais, não da maneira que repousa em minhas lembranças e, ainda, sentada movendo as mãos sobre as flores, escutei um som, algo se movia mais à frente, rápido enquanto resmungava sem parar e curiosa como sempre me levantei, passando a correr em direção daquele barulho, sentindo que me aproximava da floresta e então parei quando as sombras das árvores ocultaram o sol quente percebendo as formas que se embrenhavam na mata escura. Fiquei intrigada porque me pareciam conhecidas e dei mais alguns passos até estar diante de um imenso buraco por onde a criatura entrou e podia enxergá-lo se afastando devagar e foi quando gritei – Hein… Você! – Fiquei esperando alguma resposta e quando aquele rosto se virou em minha direção, pude identificar os traços nitidamente, mas não entendia o que estava acontecendo – Senhor Voltaire? – Mas como, porque e mais que isso, ele seguiu sempre em frente com aqueles resmungos e comecei então a segui-lo correndo como se aquele buraco, toca, não tivesse um fim, ficando estreito, escorregadio e então acabei caindo, assim como antes parecendo o fazer por uma eternidade, achei que nunca iria parar de cair… Caindo… Caindo até sentir as folhas amarelas sobre o chão que agora acomodava minhas costas e inexplicavelmente não me feri, nem mesmo sentia dor alguma e novamente aquele som e a visão do paladino correndo, agora estava irritada.

 Ele entrou numa cabana e sem hesitar também o fiz e quando percebi, estava sozinha, mas como? Em meio àquele lugar que possuía apenas um cômodo e várias portas ao meu redor me senti zonza, começando a forçar uma por uma, porque ele teria que sair por algum lugar, mas para minha surpresa, nenhuma das portas estava destrancada e a chave dourada que encontrei sobre a mesa era pequena demais, não caberia em fechadura alguma – Ou esqueci de alguma porta? – Pensei e estava certa, pois atrás de uma cortina encontrei a minúscula porta, abrindo rapidamente e podendo assim enxergar o mais belo dos jardins, tão lindo quanto as terras de Balder e ao longe comecei a escutar os risos de Anny. Sim, estava crescida, com cinco anos de idade e segurava as mãos de Mithranius, que a girava e ambos riam, numa beleza como nunca imaginei e mesmo que gritasse, não adiantaria porque assim o fiz, gritei, chorei e parecia que estavam em outro mundo ou eu estaria no errado, mas como deixar aquele maldito lugar?

Apenas minha mão passava pela porta diminuta e, então, a fechei e novamente retornei para aquela mesa procurando por alguma coisa, quem sabe outra chave e fora quando encontrei um frasco onde estava escrito em letras graciosas – Beba-me – Bom, eu assim o fiz, tolo confesso, mas o que poderia ser mais estranho do que aquele sonho? Então, quando terminei de beber, percebi que encolhia, acabando por ficar pequena o suficiente para passar pela porta, porém havia deixado a chave sobre a mesa que agora seria gigante para mim, lembro que somente fui capaz de fazer uma coisa…Chorar.

 Não sei por quanto tempo chorei sentada naquele cômodo, agora enorme até que novamente escutei um barulho, mas não seria como o de antes e quando pude reconhecer, percebi que seria Sun saindo furtivo feito um rato – Espere! – Gritei, mas de nada adiantou porque meu amigo não parou, apenas respondendo, enquanto corria – Não, se o rei souber ,cortará minha cabeça fique aqui, Burriana – Sim, ele me chamou de burriana e, indignada, passei a segui-lo saindo por uma fresta na parede de madeira e então me encontrei novamente naquela floresta, andando por uma trilha percebendo o tamanho enorme dos cogumelos, imaginava que ainda estaria pequena e foi quando percebi alguém deitado sobre um dos cogumelos, parecendo fumar um cachimbo – Senhor, senhor Riardon? Por favor, me diga como sair daqui, por que estou a crescer e diminuir, que lugar maldito é esse? – Enchi o genasi de perguntas e ele parecia alheio, às vezes até mesmo cochilando, o que me deixava ansiosa, nervosa e quando resolveu falar, fora breve, além de muito vago – Não deveria estar aqui, Burriana, se o rei souber que desobedeceu, perderei minha cabeça – Sim, eu havia ganhado um belo nome naquele lugar e inconformada com aquilo segui andando pela trilha, passando por debaixo de um galho e parando, pois escutara risos, além de um sussurro próximo e em outros momentos distante – Burriana saiu da cabana – Fiquei a questionar quem poderia ser, quando, para minha surpresa, percebi que seria Drak, deitado sobre aquele galho, mas estava diferente porque se movia feito fumaça em torno de mim, sempre sorrindo com aquelas palavras irritantes e fiquei fazendo as mesmas perguntas – Como passo pela porta para encontrar Mithranius e Anny? – E recebia as mesmas respostas, algo sobre um rei e perder a cabeça, acabando por me afastar cabisbaixa, entristecida, sentindo-me exausta e quando estava quase começando a me sentar recostada em uma árvore, percebi o paladino que passou apressado do meu lado gesticulando como se nem me conhecesse e pensei em segui-lo, mas quando notei a cabana à minha frente, mudei de ideia, até porque já o tinha perdido de vista, adentrando naquele lugar e me deparando com minha sobrinha Aryana a fazer uma sopa, esta cheirosa por demais e meus olhos não acreditavam no que estava diante de mim naquele momento – Rana? – Sim, seria a barda, mas vestia trajes finos trazendo consigo um bebê e quando escutou minhas palavras, Aryana retrucou – Não se refira assim a nossa Duquesa – Realmente aquele sonho não poderia mais me surpreender com nada e não cheguei a questionar Rana sobre como sair, porque ela ficava a falar sem parar, me enchendo de perguntas, procurando colocar um sentido em tudo, até que algo nos fizera espirrar fortemente, algum tempero usado por Aryana. Quando aquele bebê passou a chorar, Rana o passou para mim saindo apressada, dizendo que precisava encontrar com o rei – Ótimo, agora o que faço com isso? – Embravecida, deixei aquela cabana e quando cheguei ao jardim, o bebê se transformara num filhote de dragão negro – Shandra! – Sim, a barda passava para mim o que a incomodava para estar com – Rei? Não, não pode ser – Repetia enquanto andava agora aflita, rei, cortar cabeças, burriana, sim, tudo fazia sentido e meus passos foram se tornando em uma corrida que somente parou quando cheguei diante de uma mesa enorme, repleta de doces e nela estavam sentados Sun, o paladino Voltaire e até mesmo Drak, pelo menos a cabeça dele – O que é isso? –Ah sim, eu seguia com perguntas tolas e da outra ponta da extensa mesa surgiu ele andando sobre a mesma, acabando por quebrar algumas louças fazendo uma enorme bagunça – Senhor Noerya? – Ele segurou uma de minhas mãos e educadamente me deixou sentada sobre uma das cadeiras, enquanto ajeitava um chapéu esquisito que me obrigava a rir sempre que o fitava, sendo aquele o único momento em que pude descansar, pois meus pés doíam muito – Burriana, você apareceu! Chá, beba chá conosco! – Dizia o mago de maneira muito espalhafatosa enquanto notei que Voltaire parecia agitado, não demorando para se erguer e sair resmungando e aos poucos comecei a me sentir desconfortável, afinal todos pareciam não me conhecer ou se conheciam não viam a Fianna e correndo deixei aquele bosque sem olhar para trás, chorando feito uma menina boba e insegura começando a acreditar que talvez fosse mesmo uma burriana.

 Então, andei… Andei por longas horas agora, não mais encantada com a beleza dos jardins e bosques, não, apenas pensava em minha filha e Mithranius, pensava e chorava me encontrando presa sem poder atravessar aquela porta e quando percebi havia uma cerca viva diante de mim, a desbravei com dificuldade rasgando um pouco meu vestido e arranhando os braços, mas logo cheguei do outro lado onde me deparei com três soldados varrendo em círculos, algo extremamente bobo – Porque estão fazendo isso? – Indaguei e eles responderam nitidamente assustados – Você não deveria estar aqui, desobedeceu e perderá sua cabeça – Sim, eu havia chegado à morada do rei e fazia uma ideia de quem seria, não precisando sair do lugar para descobrir porque, em seguida uma procissão de soldados passara, estando nela o paladino e até mesmo Drak, sorridente, Rana, também notei e então pude vê-lo vestido lindamente de negro, sim, o maldito estava lindo, Logan Devendeer – Senhor, senhor Logan? – Senti receio porque durante todo tempo escutava que cortariam minha cabeça e agora estava diante dele e sem a máscara, apenas aqueles olhos ferozes a me fitarem e num tom ríspido ordenou quando apontara para mim – Cortem-lhe a cabeça! – Minha respiração então se tornara pesada e fora quando Drak interferiu por mim acabando por receber a mesma punição, mas Rana se adiantou lembrando ao rei que aquele seria seu amigo, então ele fora solícito e aparentemente haviam se esquecido de mim, pois recuei enquanto conversavam começando a correr por aquele lugar que me lembrava muito a área dos quartéis, com pátio da Fortaleza, quando pude sentir uma baforada de ar seguida do bater de asas fortes e nem tive tempo de gritar ou me atirar no chão, porque as garras de Razel me seguraram seguindo com um voo mais alto em direção do que parecia um forte e pude entender que agora, estava mesmo com problemas.

 Debatia-me e implorava, mas Razel nada fazia, estava indiferente usando o que parecia uma coleira e quando pousamos, pude perceber que todos estavam naquele grande salão.

 Alguns apenas para assistir enquanto o paladino, Noerya e Aryana se comportavam como jurados, pois falavam de mim, narrando onde haviam me visto e que eu fora devidamente avisada que descumpria ordens, enquanto Logan me observava sentado à frente, sim, realmente um rei e talvez se tornasse mais que isso, meu algoz, quando fui novamente sentenciada – Cortem-lhe a cabeça! – Ódio, senti muito ódio de toda aquela confusão presa num cenário irreal, confuso, onde todos pareciam marionetes comandadas, repetindo suas frases prontas, seres inanimados e me debatendo, resisti até ser rendida, vencida, tendo a cabeça posta sobre a pedra fria podendo enxergar Logan diante de meus olhos, distante, apenas apreciando suas ordens sendo cumpridas e o som da lâmina que logo ceifaria minha vida e então procurei em minhas lembranças os risos de Anny e a bela visão de ambos naquele jardim dos sonhos. Também me lembrei de Mithranius sorrindo a segurando pelas mãos, seguros, felizes e assim fechei meus olhos, não demorando a sentir o toque da lâmina sobre minha pele e em seguida o golpe rápido.

 Acordei… Despertei saltando da cama naquele mesmo instante levando ambas as mãos ao pescoço, ofegante como se tivesse corrido, suada e cansada, percebendo o sol que atravessava as frestas da janela, a pequena Anny ainda dormindo no berço e ao meu lado Mithranius em seu sono sereno. Este sonho nunca mais conseguirei apagar das minhas lembranças.