SpheraBook #38 – Contos: A Espada de São Martinho & Perdido na noite de Halloween

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A  espada de São Martinho

*O Conde de Besalu era um valente que derrotou os mouros em muitas batalhas. Onde havia perigo, lá estava ele com seu exército, e não tardava em dar boa conta das turbas infiéis.

Um dia, estando em seu castelo, veio um de seus guardas dizer-lhe que sabia de boa fonte que os mouros subiam de Bañolas em direção à Santa Pau. Imediatamente, o conde reuniu os seus leais, e saiu para enfrentar os mouros e impedir-lhes o avanço.

Quando os encontrou, no mesmo instante, arremeteu contra eles com o ímpeto que lhe era peculiar. Mas, em pleno combate, sua espada se quebrou. Não era o conde, homem que se conformasse vendo pelejar seus soldados, mas não lhe era possível seguir lutando desarmado.

Recordou-se, então, de que muito perto daquele lugar, encontrava-se uma ermida dedicada a São Martinho. Abandonou o combate uns momentos, para dirigir-se a esse lugar. Uma vez ali, ajoelhou-se aos pés do santo e lhe pediu, com todo o fervor, que ele o livrasse do apuro em que se encontrava.

Estava de joelhos, absorto na oração ao santo, quando viu que a imagem deste se movia, e São Martinho, sacando sua espada, ofereceu-a ao Conde.

Levantou-se o cavaleiro, todo jubiloso, e para certificar-se do que seus olhos estavam vendo, esticou a mão para pegar a espada. Com firmeza a tomou, e depois de dar graças a Deus, de todo o coração, saiu depressa em auxílio de seus homens, que estavam perdendo terreno.

Começou a distribuir golpes com sua espada à direita e à esquerda. Seus homens recobraram o valor que haviam perdido momentaneamente, e redobraram seus esforços. Em poucas horas, jaziam mortos todos os mouros que haviam iniciado o combate contra a Santa Fé.

Os cristãos subiram então até Besalu. Quando chegaram a Colsatrapa, sentaram-se para descansar, enquanto contemplavam o panorama de Mirana y Mor. Os soldados elogiaram o conde pelo seu valor.

Ele porém contestou, dizendo que São Martinho lhe emprestara a espada. Seus homens duvidaram, e ele, para provar a força da espada, deu um forte golpe numa pedra que havia ali, partindo-a em dois.

Essa pedra ainda existe. Hoje é conhecida por “Pedra Cortada”.

(V. Garcia de Diego, “Antologia de Leyendas de la Literatura Universal” – Labor, Madrid, 1953, p. 92)

Fonte: http://contoselendasmedievais.blogspot.com.br/2014/10/a-espada-de-sao-martinho.html

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Perdido na noite de Halloween

*Era noite de Halloween, a lua cheia brilhava forte no céu. José bateu o copo de pinga com força no balcão e se despediu do atendente gordo que enxugava alguns copos do outro lado. De pé, ele notou que o mundo estava girando incontrolavelmente, o porre do dia havia sido “bão”, como gostava de dizer.

Ele saiu do bar e virou à esquerda. Caminhou algumas quadras pelas ruas esburacadas e mal iluminadas quando se viu diante de uma bifurcação. À sua esquerda, uma mata densa e perigosa que tinha uma trilha pequena que o levaria até a fazenda onde trabalhava de peão e morava com sua esposa e filhos. À sua direita, uma estrada de chão batido que o levaria ao mesmo destino, mas demoraria uns quinze minutos a mais. Normalmente, ele não pensaria duas vezes, iria pela estrada que era segura, que o guiaria certamente à sua casa. Ele tinha medo não somente de se perder, mas também dos animais famintos que o teriam como presa fácil. Mas, naquele dia, resolveu ir pela trilha.

“Se eu ficar na trilha, eu me não me perco, chego em casa mais cedo para encher de sopapos aquela vadia que se diz minha muié.” – disse excitado.

O álcool não deixava o medo controlar José, que foi caminhando em direção à mata.

“Ô seu Zé.” – Escutou o bêbado, de longe.

Quando olhou para trás viu um de seus amigos correndo em sua direção. Sem dizer nada, ele olhou para o homem que se aproximava.

“Ô seu Zé, onde ocê ta indo sô?

“Onde ocê pensa, seu bocó? Pra casa é craro, uai.

“Se eu fosse ocê, eu num entrava aí não. Ocê sabe que tem gente que morre aí por essas bandas e gente que desaparece também.

“Era só o que me faltava, vai te catar, eu quero chegar em casa logo.”

E José seguiu seu caminho ignorando seu amigo que continuou protestando até perceber que não teria nenhum resultado.

A escuridão aumentava a cada passo que ele dava, a mata se fechava ao seu redor e a trilha, pouco a pouco, desaparecia. José quis voltar, mas quando olhou para trás se deparou com a escuridão. Agora, ele já não sabia em que direção tomar ou mesmo em que direção estava.

“Celeste eu vou te matar, sua desgraçada, é tudo culpa sua, eu vou te matar.” – gritou o bêbado culpando sua pobre esposa por seu próprio erro.

Após o grito, a natureza parecia mais viva do que nunca. O barulho de animais, insetos e plantas eram claros agora, pareciam chamar seu nome. José se virava de um lado a outro tentando ver alguma coisa e com medo de ser atacado. Algo se enrolou em sua mão, o prendendo em uma árvore e ele gritou novamente. Um inseto pousou em seu ouvido e ele ainda gritando, deu tapas fortes e descontrolados em sua orelha tentando retirar o bicho que zumbia cada vez mais alto. Agora ele tinha certeza de que estava sendo atacado, sentia que vários insetos subiam por sua perna e muitos outros zumbiam no seu ouvido. Desesperado, ele chorou.

Para o seu terror, passos fortes e altos vinham em sua direção. Seu maior medo havia se tornado realidade e ele seria atacado por um lobo, onça ou qualquer animal feroz e carnívoro que estava pronto para comer uma presa fácil.

“Celeste, eu só queria chegar em casa.” – repetiu o nome da esposa, chorando.

“José, é ocê?” – disse uma voz conhecida.

Em um passe de mágica, tudo desapareceu. Os insetos já não subiam por suas pernas ou zumbiam em seus ouvidos. O que lhe prendia a mão à arvore já não estava lá. A escuridão aos poucos foi dispersando e ele novamente podia ver as silhuetas das plantas e da pessoa que se aproximava.

“Celeste, ainda bem que ocê tá aqui. Eu achei que eu tava perdido, minha imaginação estava me pregando uma peça das boas.”

“Eu escutei seus gritos e vim te encontrar. Agora vem, vamos pra casa, homi.”

Os dois começaram a andar pela mata. Celeste na frente mostrando o caminho e José seguindo enquanto elogiava a mulher por salvá-lo. Ela, por sua vez, andava rápido e ficou calada a maior parte do tempo somente respondendo com um “uhum” às perguntas do bêbado.

*****

Enquanto isso, Celeste, a esposa de José, conversava com um amigo de seu marido em sua casa. Ele contava a ela que José havia entrado na mata, estava bêbado e descontrolado. Isso havia mais de uma hora e com certeza ele estava perdido porque o trajeto não demorava mais do que dez minutos. Ela sabia que não havia nada a ser feito a não ser esperar até amanhecer e ir procurá-lo.

Com a mão no rosto, Celeste chorou por horas seguidas. Apesar de seu marido não ser perfeito, ela o amava e seus filhos também. Por isso, ela não queria perdê-lo.

*****

“ Óia, eu sei que eu tava perdido, mas porque tamo demorando tanto? Se eu tava tão longe de casa assim como ocê me escutou?” – questionava o bêbado.

“Estamos chegando, logo, logo ocê vai chegar em casa, oia a luz ali.” – respondeu a mulher.

José olhou para frente e viu uma luz branca em meio à vegetação. Afobado, ele saiu correndo em direção ao seu destino. Quando ele passou pela ultima árvore, ele levou um susto e parou imediatamente com medo de perder sua vida. Por pouco, ele não caiu no penhasco à sua frente.

“Sua desgraçada. Ocê ta tentando me mata? – gritou José olhando a mulher que ainda estava caminhando em sua direção.

Celeste não disse nada e continuou caminhando em direção à José que esperava que ela se aproximasse para dar-lhe umas bordoadas. A luz da lua cheia iluminou o rosto daquela que supostamente era sua esposa.

Para o terror de José, quem o guiou para fora da mata não foi sua esposa, mas uma figura que ele não podia imaginar o que era. O rosto lembrava uma cabra misturada com um cavalo com olhos grandes em formato elíptico, mas coberto de escama vermelha. O corpo parecia humano, mas era coberto de pêlos negros e brilhantes. No lugar dos pés havia um par de cascos. O ar que antes estava fresco e cheirava a plantas havia se transformado em um ar pesado e denso, o cheiro de enxofre no ar era muito evidente para ser ignorado.

“Vai de reto, Sat…” – tentou gritar José.

Com uma velocidade desmana, a criatura correu em direção à José. Com um de seus cascos ela bateu no peito do homem que foi arremessado no precipício. O bêbado sentiu o casco bater em seu peito, seus pulmões não obedeceram à ordem de respirar. Seus pés saíram do chão e ele, outra vez, viu o mundo girar descontroladamente.

O José girou dezenas de vezes até atingir uma pedra que ficava embaixo do precipício. Seu corpo contorcido ficou estático e seu olhar petrificado. Sangue escorreu por debaixo de seu cadáver manchando a pedra de vermelho. Olhando com deleite lá de cima do precipício estava a criatura. Sorrindo com seus dentes grandes e pontiagudos. Ela diz ao espírito de José que está sendo carregado por vultos sombrios enquanto se debatia e gritava.

“Não se preocupe, logo, logo você vai chegar em casa.”