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[SC] Reescrevendo um legado da fabricação de uísque

LYNCHBURG, Tennessee — Fawn Weaver estava de férias, no verão do ano passado, quando leu pela primeira vez a respeito de Nearest Green, o escravo que ensinou Jack Daniel a fazer uísque. Há muito tempo, a existência de Green não era segredo para ninguém, mas, em 2016, a companhia Brown-Forman, proprietária da Jack Daniel Distillery nesta cidade, ganhou as manchetes internacionais ao finalmente aceitar o legado de Green e mudar de maneira significativa os tours explicativos para enfatizar sua contribuição.

“Foi chocante o fato de que uma marca, provavelmente uma das mais conhecidas do mundo, tenha sido criada, em parte, por um escravo”, disse Fawn, 40, investidora do setor imobiliário, afro-americana e escritora.

Ela mesma decidiu então constatar as mudanças. Mas, quando chegou a Lynchburg, não encontrou nenhum vestígio de Greren. “Fiz três visitas à destilaria, e nada, nenhuma menção dele”, contou.

Weaver estava determinada a convencer a Brown-Forman a cumprir a promessa de reconhecer o papel de Green na criação do uísque mais famoso dos Estados Unidos. Alugou uma casa e começou a procurar contatos com os seus descendentes. Vasculhando arquivos no Tennessee, na Geórgia e em Washington, estabeleceu uma cronologia do relacionamento de Green com Daniel, mostrando que Green não só ensinou o barão do uísque a destilar, como também trabalhou com ele depois da Guerra Civil, tornando-se, segundo Weaver acredita, o primeiro mestre destilador negro dos Estados Unidos.

De acordo com os seus cálculos, ela reuniu dez mil documentos e objetos relacionados a Daniel e a Green. Descobriu inclusive que o nome verdadeiro deste era Nathan; Nearest era o seu apelido. Agora, está escrevendo um livro sobre Green; em julho, ela lançou o Uncle Nearest1856, um uísque produzido sob contrato por outra destilaria do Tennessee, e afirma que aplicará todos os lucros em projetos relacionados a Green. Entretanto, conseguiu seu maior sucesso em maio, quando a Brown-Forman reconheceu oficialmente Green como o seu primeiro mestre destilador (Daniel passou a ser considerado o seu segundo mestre destilador).

“É absolutamente imprescindível que a história de Nearest seja acrescentada à história de Jack Daniel”, afirmou Mark McCallum, o presidente da Jack Daniel’s Brands da Brown-Forman.

Diz a lenda do uísque americano que colonos escoceses-irlandeses levaram do Velho Mundo o segredo da destilação para os Estados da fronteira, Tennessee e Kentucky. A história de Green muda tudo isto, mostrando que provavelmente foram os escravos que forneceram o conhecimento e a força física a uma operação perigosa e extremamente técnica.

Segundo Weaver, os proprietários de Green alugaram o escravo a alguns fazendeiros dos arredores de Lynchburg, inclusive Dan Call, um rico dono de terras que também empregava um adolescente chamado Jack Daniel para ajudar a fazer uísque. Green, já familiarizado com o ofício da destilação, ensinou Daniel e, depois da Guerra Civil e com o fim da escravatura, passou a trabalhar para ele em seu florescente negócio de uísque.

A companhia pretendia reconhecer o papel de Green como mestre destilador no ano passado, nas comemorações do seu 150º aniversário, disse McCallum, mas decidiu adiar enquanto se realizava a campanha carregada de racismo para as eleições de 2016. “Achei que nós seríamos acusados de querer aproveitar disto, visando apenas o lucro comercial”, afirmou.

Além do que, muitos não entenderam a história, supondo que Daniel fosse o dono de Green e tivesse roubado a sua receita. Na realidade, Daniel nunca teve escravos e falava abertamente que Green fora o seu mentor. Portanto, os planos da companhia foram postos de lado e é possível que permanecessem assim por muito tempo se Weaver não decidisse intervir.

No final de março, ela se encontrou com McCallum. Em maio, em uma reunião com os funcionários da destilaria, ela explicou que a companhia incorporaria Green na sua história oficial.

“É o que a minha avó sempre contava para a gente”, disse Debbie Ann Eady-Staples, uma descendente de Green que mora em Lynchburg e trabalha na destilaria há quase 40 anos. “Nós da nossa família sabíamos disso, embora a companhia não falasse”.